O Escoteiro Bolchevique – ainda sobre movimentos de jovens.

O artigo anterior deste blog, sobre a importância dos movimentos da juventude, bateu na canga de alguns adultos. E prontamente foi atendido.

Naquele texto, foi explicado que há certos setores dentro do escotismo que sentem pavor que a juventude seja dona do seu próprio futuro, que defenda suas pautas e que pratique aquilo que está no mesmíssimo método escoteiro: a cidadania. É óbvio que a publicação daquele artigo atiçou a vaidade de muitos, que acabaram confirmando tudo o que havia sido dito. Meia dúzia de parágrafos sobre movimentos de jovens foram suficientes para que espaços na internet começassem a fazer exatamente o que foi dito no artigo anterior: anular ou diminuir o papel da juventude no escotismo.

E como não tinham nada para argumentar, rebuscaram nos primeiros resultados do Google alguma entrevista ou uma única “fonte” para dar sustentação à extravagância de uma ideia que toda a juventude é insubordinada, vândala, indisciplinada e que não pode exigir muito, exceto aceitar aquilo que os iluminados possam dar a ela. E já como último recurso atacam não só o autor do texto, mas uma citação feita sobre Trotsky, relacionando-o com genocídio ou com o mesmíssimo Stalin (sic), naquela velha estratégia de levantar fantasmas da URSS. Se mal sabem a história do escotismo, não vamos pedir que saibam alguma coisa da história da Rússia.

Formar líderes.

Naquele artigo anterior, foi afirmado que quando nos oferecem uma pauta devemos fazer de tudo para elevar o debate sobre ela. Se não ficou claro, eu exemplifico: é óbvio que existe desigualdade e está claro que alguns setores da população sofrem muito mais com ela. No escotismo, poderíamos estar discutindo como combater este problema. Mas, ao contrário, estamos na fase de convencer estes poucos negacionistas que a desigualdade existe e que não é uma questão de “vitimismo” como eles gostam de dizer. Para eles, no máximo, os profundos problemas sociais frutos do regime político e financeiro atual (“infalível”, segundo suas visões) se resumem a uma questão de “esforço pessoal” ou de preparar o escoteiro para a lógica do mercado de trabalho. Não é à toa que defendem o sistema de competências, claro está, que é a domesticação de jovens e adultos.

A questão de “formar líderes” faz parte destes debates. Gostaria que estivéssemos discutindo não só a importância do que supõe uma liderança, mas discutir “quem liderará quem” e se realmente há todo este espaço para que os jovens sejam “líderes”. E vejam o contrassenso deste debate. Na medida em que se diz por aí que devemos preparar o jovem para um mundo predatório e para a lógica mercantil (de quem vende sua força de trabalho e de quem a compra por um módico preço), alimenta-se na juventude a ilusão de que neste mesmo mundo há espaço suficiente para que todos sejam líderes.

E é aqui, por exemplo, que poderíamos discutir as teses de empoderamento: faremos justiça social ao empoderar uma dúzia de jovens em detrimento dos outros milhões? Não seria mais justo que promovêssemos a “liderança” como ferramenta da própria autonomia (líderes das próprias ideias, líderes do próprio futuro) do que promovê-la com a lógica mercadológica sob uma ilusória perspectiva de que serão todos “líderes” em um mundo que trabalha essencialmente com a desigualdade?

E sem me estender, Trotsky foi um entusiasta da juventude. Foi perseguido e morto por Stalin por fazer oposição ao governo. Comandou, é bem verdade, exércitos e guerras com todos os horrores que delas advêm, nada muito diferente do que fez Baden-Powell em suas campanhas em nome da coroa. Mas o que incomoda esta gente não é Trotsky. Na verdade, o que incomoda é a possibilidade de que percam as rédeas daquilo que tanto amam: mandar, gritar, ocupar cargos e que lhes obedeçam sem nenhum senso crítico – e suas próprias páginas, espaços e visão de escotismo são fiéis a isto.

Mas, me repetindo, tenho enorme alento na convicção de que a juventude não topa e nunca topou discursos como estes. Diante da gritaria, das criminalizações e dos bordões fundamentalistas, historicamente ela sempre se impôs aos ruidosos.

Por último, e não menos importante, o Café Mateiro não é um feudo em que o autor se fecha para lamber-se em curtidas e alguns comentários. O blog é aberto, algo muito importante em tempos que outros espaços se fecham para evitar que suas frágeis ideias sofram contraponto. Por isso, eu fico à disposição, inclusive destes mesmos setores do movimento, para debater sobre este e qualquer assunto no lugar que desejarem.

6 comentários em “O Escoteiro Bolchevique – ainda sobre movimentos de jovens.

  1. Coerente artigo, dando sequência ao anterior. Só discordo em relação as competências. Acho que são uma opção de trabalho que não exclui a possibilidade de estimular o pensamento crítico, questionador e pró-ativo do jovem, muito pelo contrário.
    Infelizmente não entendo o medo que as pessoas tem de estudar história e que faz com que, por isso, dentre outros equívocos, coloquem todo russo no mesmo balde. A manipulação começa pelo fato de inibir o conhecimento de história, tornando mais fácil apoiar falácias. E em um país maniqueista como o que temos vivido, os imbecis tem espaço para gritar e os que pensam, vendo tanta imbecilidade, acabam se calando. Assim, em breve teremos terraplanistas querendo ensinar sua esdrúxula teoria nas escolas como já temos escotistas dizendo que os chefes não podem abordar assuntos polêmicos com os jovens.

    1. Sobre o falseamento da história, inclusive há um episódio bastante conhecido em que Stalin deu um jeito de apagar Trotsky de fotos, de mexer em livros e arquivos em que ele aparecia. Eu posso entender perfeitamente que o que Trotsky defendia como política pode não ter apelo para setores de um movimento como o escoteiro. O que não entendo é que, diante do papel que historicamente a juventude ocupou na transformação da sociedade (mesmo dentro do que era proposto por Baden-Powell), existam aqueles que ainda decidem anulá-la em suas reivindicações.

      É óbvio que aqui somos adultos e entendemos de algumas coisas. Uma delas é que nós não confundimos liberdade com libertinagem, assim como não devemos confundir “limitação” da juventude com uma suposta incapacidade dela em saber o que quer. Ela sabe. Nós devemos trabalhar e discutir limites, sim, mas para protegê-la, e não descartá-la ou marginalizá-la em suas demandas

  2. O que acontece é que os adultos esqueceram que o ME é dos jovens e para os jovens.

    O papo furado de que protagonismo gera indisciplina, rebeldia, blá, blá, blá, se traduz no medo destes sujeitos em perderem espaço e não mais poderem brincar de “sargentos” comandado suas “tropas”.

    O pior é que não conseguem se manter na discussão de IDEIAS, já que ao serem refutados bloqueiam os oposicionistas, abusam da falácia “ad hominem” e seguem com o estupidez em mandar quem discorda fundar seu próprio movimento/organização como se isto enriquecesse o debate. Pior ainda é quando colocam como condição “sine que non” a condição de “associado” para que se legitime qualquer crítica, talvez desconhecendo que em países onde o Escotismo é muito evoluído e confortavelmente apoiado pela sociedade (caso, por exemplo, da Inglaterra) as consultas públicas são abertas a qualquer cidadão, inclusos os que não têm carteirinha de escoteiro no bolso ou que jogaram no lixo seus uniformes.

    Aliás, o que se sabe, é que pelo menos um destes falaciosos, ao se sentirem desprezados, excluídos dos debates e discussões do ME e da UEB, publicou foto do uniforme no lixo. Quero crer que alguém que publica uma imagem destas, para tempos depois defender políticas segregatorias na instituição, é que sofre de algum transtorno mental grave.

    O fato é que estes reacionários – que não sabem nada de História russa e muito menos do ESCOTISMO – que chegam ao ponto de passar vergonha ao colocar Trotsky e Stálin como aliados, ficam entrincheirados em seus espaços, rodeados de seus pares, que temem um debate público com alguém que pode antagonizar suas ideias, seguem apenas a onda autoritária, pseudoconservadores (conheci um que até mantinha caso extraconjugal enquanto nas redes esbraveja sobre valores familiares e defendia a existência de racismo reverso) nada mais são do que oportunistas que querem implantar uma espécie de bolsonarismo e “escotismo sem partido” ME.
    Da minha parte o desafio continua de pé para um debate público, ao vivo, mediado ou não, para que se mostre a sociedade escoteira que estes filhotinhos da ditadura não aguentam 30 minutos de debate de ideias.

    1. Os administradores fazem destes espaços o escotismo que eles gostariam que se perpetuasse: “não concorda, rua”.
      É bom mesmo que não falemos sobre sociopatias. Mudar de opinião é bom. Mas não é normal mudá-la a todo momento para ganhar curtidas, notoriedade e eventualmente alguma indicação institucional. Guardemos o assunto para outra ocasião, porque muitas ainda vão surgir pelo jeito.

  3. Não concordo em ter no ME uma “academia de preparação para o marcado de trabalho”. Não é isso que os pais esperam e não é isso que os jovens buscam e gostam no movimento. Tudo tem sua medida certa, até a disciplina. Muito me desgosto quando ouço o termo “colar havaiano” em referência ao lenço que é usado de uma forma diferente, mas de longe desrespeitosa ou displicente, por jovens do mundo todo, inclusive por nossos embaixadores mundiais. Tudo precisa de equilíbrio. Até a disciplina, na medida errada, pode fazer mal ao tolher ideias inovadoras que podem quebrar paradigmas e solucionar problemas que assolam nossa sociedade. E num mundo em que as relações de trabalho estão mudando, concordo totalmente com o Café Mateiro quando fala em termos líderes de si mesmos, o que não passa de significar “assumir seu próprio desenvolvimento”. Isso é escotismo. Precisamos debater o que é melhor para a formação dos nossos jovens pensando no que é o fundamento do movimento, e não somente em convicções pessoais. Precisamos conversar sobre o escotismo que precisamos, como sociedade e cidadãos de hoje e do futuro…

    1. São muitos assuntos relacionados à “disciplina”. E em nenhum deles eu concordaria em usá-la para tolher a emancipação e demandas da juventude como fazem em outras páginas. Talvez como exemplo de algo, talvez como protocolos que temos que seguir em situações, talvez como a autodisciplina (estudos, organização pessoal), mas nunca para resgatar teorias de que a juventude não sabe o que quer.

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