Escotismo – Por que os movimentos de jovens incomodam tanto?

Nestes dias, passei o olho por três textos que circularam na internet escoteira. O primeiro deles, que faço questão de compartilhar no rodapé deste artigo, perguntava aos leitores se eles haviam notado a mudança do escotismo em direção a algo mais prático em relação à sociedade e aos problemas que dela aparecem. O autor questiona, ainda dentro deste importante tema, se não seria também importante manter a simplicidade do escotismo ao mesmo tempo em que poderíamos nos ocupar com questões maiores, como o combate ao racismo ou à desigualdade.

Ainda que não concorde integralmente com o conteúdo, o autor propôs um debate interessante sobre as demandas vigentes que vemos replicadas em todas as partes do mundo. Eu acrescentaria uma outra questão ao texto: depois de mais de 100 anos, não seria hora de estarmos discutindo se, de verdade, conseguimos algum resultado na “construção de um mundo melhor”?

Quando a sociedade nos oferece estas e outras pautas, como aquelas atualmente propostas por jovens e adultos ao redor do mundo, devemos ter sempre o objetivo de elevar este debate, e nunca puxá-lo para trás com negacionismos, saudosismos tolos ou simplesmente nos afastando dos problemas na crença de que desaparecerão sozinhos. Eduardo Missoni, que já ocupou a cadeira de secretário-geral da WOSM, nos alertava que deveríamos sair desta nossa concha se quisermos alguma relevância como movimento juvenil. Ou como disse Laszlo Nagy, autor do livro “250 milhões de escoteiros”, quando era secretário-geral da repartição Mundial do Escotismo:

“Ficamos frequentemente satisfeitos com repetir que o nosso Movimento é, por definição, fundamentalmente apolítico. Talvez seja, mas a interpretação errônea deste princípio, em vez de fortalecer nosso Movimento, ameaça afastá-lo das realidade da própria vida”. E continua: “Queiram ou não queiram, o Escotismo, como outros movimentos juvenis, tem de encarar de frente as realidades, e isto requer coragem.

Mesmo Baden-Powell nos dizia, em julho de 1912, que “nós, no escotismo, não desejamos apenas corrigir os males sociais presentes, mas prevenir sua recorrência nas gerações futuras”. Pouco antes de sua morte, em março de 1939, dizia o fundador que “às vezes necessitamos mais que cidadãos passivos na construção de uma sociedade mais forte”. E a juventude tem um papel fundamental em tudo isso.

Escoteiros poloneses durante a Segunda Guerra Mundial

E aqui entram os outros dois textos, que faço questão de não compartilhar. Eles abrem uma cruzada sem sentido contra as reivindicações da juventude, puxando o debate para trás. Os dois textos alimentam a ideia de que jovens devem ter seu espaço limitado ao clã, tropa ou patrulha. Acaba insinuando, para o meu profundo desconforto, uma relação da disciplina com a forma em que se veste, e outras tantas alegorias de alguém que interpretou o escotismo de forma extravagante, provavelmente baseado na idealização da própria infância, e ainda crê que é este o movimento “que todos querem”.

Mas por que a juventude incomoda estes setores do escotismo? Qual seria o problema com a juventude na ocupação de determinados espaços? Por que incomoda tanto que um jovem alce voz contra políticas governamentais, contra o racismo, a desigualdade e o preconceito? Por que, quando a juventude começa a se ocupar da transformação da sua realidade (o que é explicitamente contemplado no método escoteiro), aparecem pequenos grupos para impedir ou diminuir este papel? Por que estes grupos se escandalizam quando aparece um jovem colocando-se contra o fascismo e portando seu uniforme/vestuário? Por que ensinamos que o método escoteiro tem como objetivo a prática cidadã, mas quando jovens começam a praticá-la, corremos para limitar seu espaço?

Historicamente, a juventude esteve ligada a movimentos que abalaram e derrubaram governos, regimes e valores que já não representavam a sociedade. Muitos sociólogos, analistas políticos e filósofos dão por certo que os jovens são o motor que impulsiona qualquer mudança na sociedade. E esta afirmação, com um largo respaldo histórico, gera um tremendo problema aos defensores da ordem (desigual) vigente, mesmo dentro do movimento escoteiro.

Jovens no “Maio de 68” – França

O escotismo foi proibido, jogado à clandestinidade ou aparelhado em diversos países com regimes ditatoriais. Estes governos faziam isto não apenas para se aproveitar do método escoteiro. O fizeram porque todas as formas de organização (mesmo as juvenis) eram vistas por estes regimes como uma ferramenta de uma possível oposição. E, de fato, este temor tinha justificativa. França e Polônia, por exemplo, durante a ocupação nazista contavam com movimentos de resistência, integrado por jovens, assim como por jovens escoteiros. E o papel da juventude foi assim, atuante em momentos decisivos da história:

França, maio de 1968.

Um exemplo bastante estudado em universidades foi o movimento liderado pela juventude francesa em 1968. A renovação de valores, a ampliação de direitos civis, as guerras, a precarização do trabalho e os discursos conservadores fizeram que estudantes de uma universidade francesa começassem um dos maiores movimentos de jovens já vistos. Alastrou-se, também, pela classe trabalhadora e resultou em uma das maiores paralisações da produção da Europa, com 9 milhões de trabalhadores parados. O fato fez com que Charles de Gaulle não apenas cedesse a algumas pautas, mas se refugiasse com temor às manifestações, renunciando em 1969.
Muito ligado à arte, o movimento de maio de 68 se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil. Em junho daquele ano, houve a “Passeata dos 100 mil” organizada pelo movimento estudantil brasileiro contra a ditadura militar no país.

Diretas Já.

Entre 1983 e 1984, houve um grande movimento para a eleição direta presidencial. Os estudantes secundaristas tiveram um papel fundamental na então eleição de Tancredo Neves por colégio eleitoral. Nesta mesma época, ainda nos anos 80, foram estes estudantes que encabeçaram o direito a voto para jovens de 16 anos, assim como a reabertura de grêmios estudantis no Brasil no que ficou conhecido como “Grêmio Livre”.

Fora, Collor.

O grande movimento pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, envolvido em escândalos de corrupção, teve como protagonista os secundaristas “caras pintadas”. Collor renunciou para não sofrer processo de impeachment no congresso.
Quem já era nascido nesta época, lembrará da preocupação de nossos pais com as contas bancárias e poupanças. Foi a juventude, alertada por isso, que tomou a dianteira no movimento.

São pouquíssimos casos exemplificados, e que não fazem justiça ao papel histórico dos movimentos da juventude na história. Os jovens, em momentos marcantes do mundo, sempre foram a peça que dava ânimo às transformações da sociedade. No escotismo brasileiro, por uma minoria, este papel é constantemente atacado na tentativa de reduzi-lo ou domesticá-lo. É por isso que, vez ou outra, vemos páginas sobre escotismo e, infelizmente, dirigentes tentando limitar o espaço da juventude na instituição para manter a estrutura rigidamente hierárquica, sem ampliar espaços para debates ou reivindicações.

Para vocês terem uma ideia de como isto acontece, basta comparar o Código de Conduta recém-lançado pela direção nacional e a Carta de Natal, que foi um manifesto escrito pela juventude. O Código de Conduta levou menos de 1 ano para sair do papel. Uma posição institucional sobre homoafetividade (reivindicada na Carta de Natal) levou mais que o dobro deste tempo para se tornar política da associação. Há outros que frequentam este blog que podem falar melhor do que eu deste assunto, mas está claro que este posicionamento só saiu pela pressão da juventude. Que continuem assim.

“A renovação do movimento faz-se pela juventude, livre de toda responsabilidade pelo passado.” -Trotsky

Referências para este artigo:
História da APE

B.P’s Outlook

Carta de Natal

Posicionamento sobre homoafetividade 

Artigo BP International

3 comentários em “Escotismo – Por que os movimentos de jovens incomodam tanto?

  1. Excelente ponto de vista. Me preocupa muito hoje a ideia de que o escotismo serve para “moldar” ou “criar” os líderes do futuro numa visão de adestramento para o mercado de trabalho e encaixe no estereótipo do bom cidadão, o que muitas vezes leva ao sufocamento do jovem e sua consequente evasão, por entender que “não se encaixa”. Precisamos potencializar o que nossos jovens têm de bom a oferecer à sociedade, ajudando a assumirem seu desenvolvimento na busca por um mundo melhor para eles e para as futuras gerações.

  2. Perfeito este texto. Sou escoteiro e levo comigo várias bandeiras. Devemos ensinar os jovens a lutar pelas suas bandeiras, acima de tudo o que se relaciona ao respeito, liberdade, democracia, passando pela defesa do meio ambiente e as lutas pela redução das desigualdades.

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