UEB-SC resolve usar a marca nacional e agora “somos um só”. Só que não.

Déjà vu.
No ano passado, este blog divulgou a notícia sobre a substituição do lenço regional de São Paulo pelo lenço nacional. No texto, alertava-se que a mudança foi puramente política, muito longe deste sentimento iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade que querem nos fazer crer. Enquanto divulgavam que o lenço nacional nos traria um sentimento de unidade, a região paulista, por exemplo, impunha sanções a associados que não participassem em atividades.

O que acontece é que mudanças simples e que poderiam passar sem grandes traumatismos são usadas como artifício de manutenção de grupelhos. Não se trata de sentimento de unidade, mas de um jogo de forças políticas dentro da associação, onde quem ganha sempre é aquele que sabe usar o aparato associativo a seu favor.

O recente caso da região escoteira de Santa Catarina não foi diferente.

Antecedentes

No dia 2 de março, a UEB-SC divulgou um comunicado em que anunciava a substituição de sua marca regional pela marca nacional, argumentando que uma identidade única demonstra união. O interessante da nota (relevados os erros de português) é que, ao mesmo tempo em que diz que a sua própria marca trouxe orgulho à região de Santa Catarina, sua substituição “é o adequado a se fazer” e que “é preciso dar um passo atrás”, simples assim. O texto nem ao menos se esforça para explicar a situação, oferecendo justificativas genéricas, senso comum e discurso motivacional que, como todos sabemos, estão longe de unir teoria e prática.

Como na região de São Paulo, a nota de Santa Catarina não é inocente. É uma decisão politiqueira motivada por uma outra região que vem enfrentando problemas com “os donos” da marca “Escoteiros do Brasil” – e aqui vai uma dica: estes donos não somos eu e vocês.

Escoteiros de Minas

No dia 22 de fevereiro, a região escoteira de Minas Gerais divulgou sua nova identidade visual. A equipe regional de comunicação mineira conta com Ricardo Machado como coordenador – que não é conhecido por seus casos de amor com a direção nacional, especialmente com a já extinta ENIC – Equipe Nacional de Imagem e Comunicação (que ainda parece mandar e dirigir a associação).

A mudança do logotipo da região mineira, mesmo que apoiada pelo atual diretor de comunicação nacional, não agradou os idealizadores da nova identidade da UEB de 2010, antigos membros da ENIC. Segundo estes membros, todas as regiões devem usar o logo nacional que, apesar de aplicação precária, desenvolvimento amador e a falta de regulamentação, deve ser instituído por decreto ou – pior – por manobras nos bastidores.
E, a partir daqui, começou um cabo de guerra para desprestigiar o trabalho de comunicação da região de Minas Gerais (como se pode ver no print abaixo).

A justificativa para uma marca que identificasse os escoteiros de Minas foi a mesma que a da região de Santa Catarina, que sempre contou com o apoio da ENIC para usar sua própria identidade. Ademais, a própria UEB-SC foi usada como exemplo para o desenvolvimento da marca mineira e para esta espécie de autodeterminação em termos de comunicação.

Acontece que, dias depois da apresentação da nova identidade visual da UEB-MG, a região catarinense parece ter refletido profundamente sobre sua própria marca e divulgou o comunicado em que anunciava sua substituição, provavelmente orientada pela direção nacional, mas especialmente pelos antigos donos da nova identidade dos “Escoteiros do Brasil”.

Manobra política, ilegalidade x legalidade

Antes de entrar na questão política, é importante lembrar que o amadorismo e o aparelhamento da instituição ficaram evidentes na própria execução da nova identidade visual dos Escoteiros do Brasil em 2010. Digo isso porque esta nova identidade nacional “visionária” ainda não foi regulamentada pela associação, depois de oito anos de sua divulgação. Ou seja, não se pode cobrar aquilo que não é regulamentado pela DEN ou pelo CAN. O que existe é um manual de aplicação da marca, que em nada serve como documento de regulamentação. E mesmo sobre o manual, recomendo este artigo escrito por um professor de design em São Paulo, que fala especificamente sobre os erros desta identidade visual nacional.

No âmbito político, os comentários dos antigos membros da ENIC que surgiram com o comunicado da UEB-SC mostram que, na ânsia de atacar o coordenador regional de comunicação em minas, também desqualificam toda uma equipe de comunicação regional, os associados mineiros e a própria diretoria regional da UEB-MG.

“Papos bizarríssimos com visuais ainda mais bizarros vindos de MG”, afirma um diretor da extinta ENIC, direcionando seu comentário à região de Minas Gerais.

Se já é feio ler isso, fica ainda pior quando os comentaristas são os mesmos senhores que usaram a instituição para engordar o portfólio de suas empresas através do desenvolvimento de um nova marca nacional não pedida, mas que eles assim quiseram; são os mesmos que foram partícipes de gestões desastrosas que mergulharam a associação nacional em várias crises institucionais.

Peguem, por gentileza, as informações do Manual de Identidade Visual e vejam as empresas privadas participantes, que são as mesmas de alguns diretores da extinta ENIC ou que vendiam instalações de sites escoteiros enquanto a associação proibia seus associados de usarem a marca “Escoteiros do Brasil”.

Novamente: não se trata de “somos um só”, tampouco de sentimento de unidade. Estamos falando de um pequeno grupo que tomou o escotismo brasileiro para si, onde podem usá-lo da maneira que desejam.

O autor do Café Mateiro sempre teve a região de Santa Catarina em boa estima, principalmente por seu trabalho em comunicação – mesmo sabendo que esta região sempre foi o quintal das experiências de políticas nacionais.

Mas se o que querem é um sentimento de unidade, comecem por não permitir que esta região seja usada para justificar, apoiar ou embelezar este aparelhamento de uma instituição juvenil, onde projeção pessoal parece ter virado uma nova forma de administração.

Anúncios

5 pensamentos sobre “UEB-SC resolve usar a marca nacional e agora “somos um só”. Só que não.

  1. O próximo passo nesse maquiavélico plano de BSAlização e que vem ruminado em ruído de fundo, é a extinção dos lenços de Grupo e adoção do lenço da nacional pelos Grupos Escoteiros. Pode-se observar que nas fotos de propaganda institucional os Elementos não usam os lenços dos próprios Grupos.

    • Sobre a extinção dos lenços, isso já existe a bastante tempo, os quais usam como exemplo a BSA e os Desbravadores (do qual eu faço parte). As regiões recebem desde a adoção deste novo lenço uma grande pressão para que mudem seus lenços para o nacional para terem esse “sentimento de unidade”, mas isso não anda colando aqui em minha região. Mesmo com mandos e desmandos, diversos problemas, pelo menos isso ainda não vai acontecer tão cedo.

      • Meu caro Átila Santos, pelo menos uma coisa você tem razão: “isso não vai acontecer tão cedo”. Embora alguns supostos detentores da marca “Escoteiros” desejem BSAlizar o Escotismo no Brasil, entenda como institucionalização ou organização empresarial, acredito que dificilmente os Grupos Escoteiros e/ou Regiões, abrirão mão de suas imagens, tradições e misticas, muitas quase centenárias, a exemplo dos lenços escoteiros. Existe um ditado popular que diz: “Quanto mais cabras, mais cabritos”. Imagine todos sendo obrigados a usarem o lenço da Nacional? Aonde seriam adquiridos? Eis o “X” da questão.

  2. QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA…
    Relendo uma publicação na Biblioteca do Holocausto, resolvi extrair o início do seguinte texto abaixo:
    A PROPAGANDA POLÍTICA NAZISTA
    “A propaganda política busca imbuir o povo, como um todo, com uma doutrina… A propaganda para o público em geral funciona a partir do ponto de vista de uma idéia, e o prepara para quando da vitória daquela opinião”. Adolf Hitler escreveu tais palavras em 1926, em seu livro Mein Kampf , no qual defendia o uso de propaganda política para disseminar seu ideal de Nacional Socialismo que compreendia o racismo, o anti-semitismo e o anti bolchevismo.
    Contexto Histórico:
    Após a chegada do nazismo ao poder em 1933, Hitler estabeleceu o Ministério do Reich para Esclarecimento Popular e Propaganda, encabeçado por Joseph Goebbels. O objetivo do Ministério era garantir que a mensagem nazista fosse transmitida com sucesso através da arte, da música, do teatro, de filmes, livros, estações de rádio, materiais escolares e imprensa.
    Longe de querer ser aqui sectário ou extremista, (entendam como radical, intolerante, intransigente, etc., etc.), por ter também formação em Marketing, embora não atue na área, sei da importância e do poder que esta ferramenta de gestão exerce sobre grupos e pessoas.
    Acontece que quando este instrumento é utilizado com finalidades políticas, ele se torna extremamente perigoso, causado fissuras, afastamentos e perseguições por parte daqueles que detém o poder, daí a justificativa do texto acima exposto.
    Segundo afirmativas de alguns “coroados” irmãos de lenço escoteiro, alegam que hoje, a Instituição Escoteiros do Brasil, sobrevive financeiramente em grande parte do lucro da Loja Escoteira, chegando seu montante ou aporte financeiro em torno de mais ou menos 70 % (setenta por cento) do total de suas verbas arrecadatórias.
    Não é de estranhar a denominada “fabrica de distintivos” e também, quase a totalidade de seus produtos, serem denominados de “Griffe”, sem levar em conta um custo de envio ou frete, bastante elevado.
    A atual política comercial e financeira dos Escoteiros do Brasil, com imposições e monopolização de produtos escoteiros, tem dificultado significativamente o desenvolvimento e a perpetuação de Grupos Escoteiros em Regiões onde as diferenças socioeconômicas são bastante acerbadas, que é o caso das Regiões do Norte e do Nordeste, pois além de preços não muito acessíveis, as despesas de envio dos produtos, tem um custo bastante oneroso.
    O que esperar de uma instituição, a qual foi criada com o objetivo de transformar uma ideia em um “Movimento de Fraternidade”, apolítico, voluntário e sem fins lucrativos, quando por conta de uma suposta modernidade, a mesma se transforma em uma “Organização Empresarial”. O que deveria ser uma “Máquina” de realizações de sonhos, ideais e transformações sociais, de repente se torna um agente de desagregação, imposições metodológicas e comportamentos materialistas.
    O escotismo no Brasil nunca foi uníssono, sempre foi pautado por grandes divergências e com a existência de uma centena de Associações, Federações e até Confederações. Embora muita gente acredite a “União” do Escotismo Brasileiro se concretizou com a Fundação da UEB – União dos Escoteiros no Brasil em 1924, na verdade ela só se consolidou entre os anos de 1950 a 1960, se valendo de Decretos Legislativos e assim impondo sua força e afastando de vez outras instituições correlatas, a exemplo da FEBEAr – Federação Brasileira de Escoteiros do Ar, sendo esta a última vítima da vontade e do poder institucional imposto de forma imparcial e insensata.
    Como os acontecimentos da história são sempre cíclicos e repetitivos, não é de estranhar, uma vez ou outra o renascimento de certos episódios ou fatos ocorridos, tais como o afastamento e/ou execração de membros adultos e a proliferação de novas Entidades Escoteiras.

  3. Ao que parece o mimimi é com Minas Gerais.

    Até então ninguém havia feito textão no FB contra a marca regional de Santa Catarina e, pelo jeito, nem sabem que a Bahia também usa sua própria marca. Como bem definido no texto, estas pessoas não estão preocupadas com unidade, com “somos todos um”, mas sim em atacar à mim e toda a equipe regional de imagem e comunicação de Minas Gerais, desrespeitando profissionais que se dedicam há 2 anos com o Movimento Escoteiro, que implantou uma comunicação de verdade em nossa Região. Esta movimentação toda – hipócrita diga-se de passagem – tem cunho político e pessoal.

    Os idealizadores da “nova marca” dos Escoteiros do Brasil, que se beneficiaram diretamente com a sua criação já que conseguiram colocar em seus portfólios uma entidade centenária como “cliente” (mesmo que “pro bono”) estão com os cotovelos doendo e seus egos feridos. O que mais espanta que são os mesmos que vivem dizendo que Facebook não é local de tratar de questões institucionais. Pelo visto, não é lugar desde que o assunto os interesse.

    Este episódio nos dá a correta medida em como pessoas envolvidas com grupos políticos dentro da instituição acreditam que mandam em tudo e que suas vontades e interesses devem prevalecer. Desde o sujeito que da França fala de “bizarrice” mas teve a sua “primorosa criação” criticada por mais de um especialista, até o sujeito que comercializava serviços como a expressão “Escoteiros”, passando por quem afundou a instituições em crise e idealizou o atual uniforme, vemos que a questão é cada dia mais pessoal.

    Como já disse, e repito: estarei em Curitiba. Se algum dos reclamantes quiser conversar pessoalmente ao invés de ficar com choradeira em redes sociais onde não posso exercer o contraditório, basta me chamar. Em geral, toda a valentia e “razão” acabam quando estão frente-a-frente comigo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s