Receita mateira para você fazer no 7º Jamboree Nacional

Aproveitando o clima das festas juninas (olha a cobra! É mentiiraaa), este blog não falará do preço inclusivo, justo e que cabe em qualquer bolso da inscrição do Jamboree Nacional. No lugar, passará uma receita de comida mateira para você e sua patrulha.

Adivinhem…é mentiiraaa.

Seguindo o vídeo postado por um escotista em que questionava o valor da atividade, fazendo eco a muitas vozes, repassemos o que se sabe do Jamboree até aqui. O vídeo pode ser visto no rodapé deste artigo.

7º Jamboree Nacional

Depois de montar o GT “Eventos Nacionais” para baixar o custo das atividades, A UEB – “Escoteiros do Brasil” divulgou os valores do 7º Jamboree Nacional, que acontecerá em Barretos/SP em 2018.

Para os que pagarem antecipadamente, o valor será de 630 reais sem alimentação. Para os que só puderem pagar parcelado, o valor fica em 680, também sem alimentação. Ou seja, como forma de “baratear” a atividade, a organização entendeu retirar a alimentação.

Ainda assim, o evento contará com um supermercado na atividade e pretende divulgar os itens vendidos e seus preços em breve. Uma imagem do mercado pode ser vista abaixo

Feudalismo

Ficou mais barato?

Comparado ao Jamboree anterior, a atividade ficou mais barata. Dos 815 reais (com alimentação) que custava o 6º Jamboree Nacional, agora passamos para 640 (sem alimentação). A diferença é de 135 reais. Em relação ao salário-mínimo, o valor da edição anterior do evento consumia 112%. O valor atual (sem o acréscimo da alimentação), cai para 68%.


Participação

Provavelmente os organizadores esperam a presença de 5 mil participantes, o que representa 5% do efetivo entre jovens e adultos. Esta é a média de participação de um Jamboree Nacional no país, deixando os outros 95% de fora por questões estruturais, mas principalmente financeiras. Acontece que os 640 reais continuam distantes da realidade social e econômica do país, ainda mais levando-se em conta a alta taxa de desemprego juvenil (25%, segundo o IBGE) e o atual momento de crise.

No entanto, como se trata de Barretos/SP, da região com maior efetivo (24.600) e com condições socioeconômicos um pouco melhores (segundo a RAIS, é o terceiro estado com melhores salários, sendo o maior PIB do país), é provável que a participação ultrapasse a porcentagem de 5%. E isto será interessante porque, apesar de que um Jamboree em São Paulo represente uma bolha específica (unindo os fatores como efetivo, condições financeiras, localização), um número eventualmente alto de participação será espertamente usado pela organização como sinônimo de “inclusão” e “boas práticas”. Só que não.


“Apontar o erro é fácil. Cadê a solução?”

Mesmo que as promessas de baratear atividades e os trabalhos do GT “Eventos Nacionais” não tenham saído do papel de forma contundente, ninguém pode presumir de gênio ao fazer as seguintes observações.

Há dois tipos de economia que podem ser feitas aqui: a interna e a da atividade em si. Quanto à interna, devemos desvincular certas aventuras do imaginário romanceado da direção nacional. Por citar um exemplo recente, na última ata do CAN (nr. 87), falou-se em reatar o processo de “Marca de Alto Renome” para a palavra escoteiro. Na prática, a UEB já perdeu processos com o mesmo teor (como a contestação de patente por parte do G.E. Georg Black/SOGIPA) e já gastou cerca de 100 mil reais anuais em ações correlatas durante alguns anos. No entanto, mesmo que a gestão tenha mudado, ainda se insiste nestas custosas aventuras com alta probabilidade de insucesso (leia mais aqui).

No apagar das luzes da última gestão da Diretoria Executiva Nacional, dois diretores fizeram um tour pela Europa para analisar “boas práticas” em termos comerciais em associações escoteiras internacionais. Até aqui, tudo bem. Porém, passado um bom tempo, não foi gerado nenhum relatório ou plenária dessa viagem. A pauta não foi sequer incluída no último congresso. Então, ao resumo: existe dinheiro, mas o gasto (por vezes alto e contínuo) não nos traz retorno ou ao menos não se vê refletido no preço de atividades.

Como foi apontado no artigo sobre o MutPio, a UEB não deve (e não pode) embutir taxas de participação dos funcionários do escritório na inscrição do Jamboree. A economia não é, em tese, significativa; mas como a “caixa preta” dos valores da inscrição é apenas entreaberta, fica o dado apontado como parte de uma política econômica.

Uma outra questão é cobrar dos conselheiros e diretores nacionais o mesmo rigor que se tem em relação aos níveis abaixo. Em 2011, por exemplo, um conselheiro contratou um consultor por conta própria, sem passar por nenhum órgão nacional (nem pelo próprio CAN). Como não podia anular o contrato, o dinheiro não voltou aos cofres associativos e nada se sabe sobre os resultados dessa consultoria. Já em 2012, ao redigir seu orçamento, o CAN aprovou uma nova consultoria de 100 mil reais – também não se sabe do que e para quê.

Também em 2012, foi publicado o equilíbrio orçamentário do Jamboree, ou seja, o número de inscrições que cobriam o gasto do evento. Eram 2500 inscrições. O interessante é que essa foi uma das poucas vezes que a direção nacional divulgou este dado. E reparem que 2500 participantes são suficientes para cobrir os gastos do evento dentro dos moldes organizativos atuais.

Já em 2015, o lucro do Jamboree (314 mil reais) foi usado para uma das várias reformas que o escritório nacional sofreu em oito anos. Estas reformas, depois de terminadas, geralmente contam com inaugurações festivas onde aparecem políticos e diretores da DEN. O mais interessante é que estas inaugurações coincidem com a aproximação de períodos eleitorais.

Por outro lado, a UEB possui uma receita de 12 milhões anuais, segundo o relatório anual. Com parcerias privadas e públicas, e ainda com a própria arrecadação em atividades, a instituição sempre fecha o ano com lucro. O dado interessante aqui é que, em ano de Jamboree, o lucro praticamente duplica (passando, por exemplo, de 900 mil para 2,8 milhões, menos o valor que cobre a estrutura do evento). Ainda que não tivéssemos nenhuma parceria, poderíamos subsidiar parte da atividade apenas com o dinheiro arrecadado pela associação entre seus associados. Com parcerias, essa subvenção aumenta e o preço da atividade cai ainda mais. A questão aqui não seria o que cortar, mas o que fazer com o dinheiro que já temos e como pensamos uma atividade a cada 2 anos.

Foram listados apenas cinco itens com o que é divulgado oficialmente pela associação. Com documentos financeiros completos, cujo acesso é um pouco difícil, seria melhor.


Lá fora

Estes são alguns preços de Jamborees realizados entre 2015 e 2016 em alguns países. Reparem que foram usadas regiões diversas, com menor e maior efetivo que o Brasil.

Peru
– Preço do Jamboree: 150 nuevos soles (45 dólares) – 7 dias
– Salário mínimo: 850 nuevos soles
– Relação salário mínimo/Jamboree: 17%

Chile
– Preço do Jamboree: 45.000 pesos chilenos (67 dólares) – 7 dias
– Salário mínimo 245.000 pesos chilenos
– Relação salário mínimo/Jamboree: 18%

Espanha
– Preço do Jamboree: 220 euros (246 dólares) – 10 dias
– Salário mínimo: 825 euros
– Relação salário mínimo/Jamboree: 26%

França (com participação europeia)
– Preço do Jamboree: 180 euros (201 dólares) – 7 dias
– Salário mínimo: 1.467 euros
– Relação salário mínimo/Jamboree: 12%

 E, sim…também é verdade que há países onde se cobra igual ou mais que o Brasil.


Repensar “Jamboree”

Como se vê, nossas atividades são pensadas como campanhas de arrecadação pela direção nacional e, inclusive, se comemora superávit sobre elas. Tanto é assim que o próprio CAN, em sua última ata, aponta para a necessidade de recuperar o certificado de entidade sem fins lucrativos, que foi perdido…e vocês devem estar imaginando o porquê.

Não é feio, amigos, que uma instituição tenha lucro. Mas é feio quando se inflam preços a custas de jovens e adultos, restringindo a participação em atividades e barrando a inserção do escotismo no país.

O escotismo, em termos institucionais, passa por uma crise de direção. Os órgãos institucionais, responsáveis pela política de preços, não só começam a ser questionados como têm caído em descrédito. Ademais, a própria direção se resiste em romper esta lógica meritocrática de que “não foi no Jamboree porque não se esforçou o suficiente”. Oras, como encaramos a juventude e o que queremos ensiná-la com este discurso? É bastante confortável para alguém que faz tour pela Europa falar em meritocracia enquanto estipula altos preços de atividade que 95% do efetivo não pode pagar.

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11 pensamentos sobre “Receita mateira para você fazer no 7º Jamboree Nacional

  1. Uma questão de logística> Ao alimentar-se você terá que produzir o que se chama de “detritos”. Estes “detritos” sempre resultantes da ingestão de alimentos ( estes não previstos na cota) são conhecidos com numero “1” e nr “2”. Até ai nada que assuste um chifre kudu. Agora… se você trouxer de fora campo seus alimentos.. pergunto se você terá que pagar uma taxa a cada momento em que se aliviar.

  2. Uma pena que este artigo não será lido por todos os associados da UEB. E mesmo que alguns já tomaram conhecido e até mesmo publicaram nas redes sociais seu descontentamento nada foi feito e nada será feito pela impossibilidade ditada nos Estados que são uma verdadeira aberração de uma participação mais democrática de todos os membros adultos do escotismo nacional. Enquanto os estatutos não forem modificados, e isto se torna dificil por quem pode de direito votar acredito que nosso movimento será sempre o que se. Um escotismo para todos… Quem podem pagar e aceitam disciplinarmente tal aberração.

  3. Dia desses mesmo, estava conversando com um desses “bemaventurados” que tem a possibilidade de ir a grandes atividades – nacionais e internacionais – estava com um lindo lenço lilás, de uma atividade do Ramo Sênior, que ele trocou, “numa dessas atividades aí…”, e lhe dizia que, mesmo após “…trocentos” anos de Movimento, eu jamais havia ido a uma atividade internacional – diga-se JAMBOREE – já que, “na minha época”, grandes atividades nacionais levavam a alcunha de “AJURIS”; “Jamboree Nacional”, era uma excrecência; uma vez que, tanto os preços, como a falta de vagas na qualidade de STAFF, (sim, STAFF, porque dadas as ciscunstâncias, nem sempre temos à mão, uma Seção inteira, prontinha para levar para uma atividade dessas), que quase sempre estão preenchidas pelos “amigos do rei”. Enfim, voltando a pessoa em questão, que me dizia: eu, já fui no JAMBOREE tal, qual, e “qual outro”. Vou sempre como “membro juvenil”,(“jovem lider”, acabou de fazer 22): eu, de pioneiro, meu pai, de Mestre (!!??). Aproveito para, aqui, saudar meu eterno Chefe Sênior, GianValente, que muito me ensinou. Principalmente a “brigar” pelo que é certo. E a fazer o que for preciso, pela filosofia Escoteira. Nem que seja nº1 ou nº2, (risos).

    • PeloamordeDeus! Desligue esse programa “Lázaro” o que faz ressurgir escotistas mortos por um inominado ataque de gerontocracia por parte da Associação! Por uma fatalidade dos astros.. nasci em um signo no qual voce é visto como uma “vistosa merd@ ambulante” e disso estas Assembleia ja tem conhecimento pois pessoas as quais deveriam ser adultas procuram ofender até profissionalmente. Mas ha a Lei da contrapartida.Ha então jovens.. hoje pessoas.. hoje em plena fase de coletar vivencia… que orgulham o meu passado. Mesmo o remoto… pois o passado recente começou por volta de 1999 com o caso “André Kolowska”. Quando leio “Javali mias Canuto do que cinzento”.. penso no Marcos Pontes, no Eduardo “banana”.. penso em outros… Fugi do assunto.. mas ir de staff é obvia “distribuição disfarçada de lucros”. Se não pode…não pode e basta.. não se deve locupletar a manta escoteira á custa do distintivo alheio.
      O radicalismo? nem pelo cacete! O erro está em impedir com ardil a ida da pessoa. IMHO

  4. O pior de tudo é saber que a UEB vai continuar fazendo isso por pelo menos mais algund jamborees… No meu ponto de vista atividades estaduais deveriam ser mais incentivadas buscando um menor custo, assim se priva um menor número de pessoas de grandes atividades, o que ainda não é o ideal.
    Creio que a situação só vai mudar mesmo se os membros não forem as atividades. Você vê diversas reclamações sobre preço e alimentação, mas os associados(que tem condições) não deixam de ir, enquanto o sistema for lucrativo ele continuará existindo, para a atividade ser repensada é necessário um boicote!

  5. Eu sugiro no item aonde são comparados os valores dos Jambores em outros países que façam a comparação com relação ao dólar, não compare com salário mínimo. É assim que as grandes empresas e economistas fazem estas comparações, acho que vai ficar mais profissional esta comparação.

  6. perfeito…é realmente uma pena, está compensando bem mais ir ao Jamboree Mundial nos EUA do q no Nacional….Lamentável!!

  7. Pingback: Desbravadores fazem evento por 300 reais no mesmo local do próximo Jamboree. – Café Mateiro

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