Fica decretado: abolir um lenço nos enche de sentimento de unidade.

Se vocês estiverem prestes a concluir um curso de administração, relações-públicas, publicidade, jornalismo, vocês devem fazer um TCC sobre como o escotismo brasileiro lida com certas situações dentro de sua forma organizacional. Chega a ser surreal como se tenta artificialmente imbuir um sentimento de “unidade” com ações estéreis do tipo…trocar um desenho, uma cor ou abolir um lenço. Ou seja, assuntos periféricos passam a ter contundente relevância, desde que nos ajudem a propagandear que uma gestão “está se movimentando”, nem que seja numa partida de ludo.

Mas nenhum discurso é inocente. Há uma certa violência simbólica, um poder de coação em algumas ações que podem passar despercebidas para aqueles que, como dizia Dominique Bernard (ex-diretor da associação escoteira francesa), possuem uma alta tendência à autocongratuação. Ao pensamento de Dominique, acrescento aqueles que possuem alta disposição de usar o corrimão da vida para se fazer notar nas diretorias regionais, nem que para isso usem páginas patrocinadas.

Mas, primeiro de tudo, vocês devem conhecer o básico da inocuidade apelativa. As ações inócuas aliciam com discursos agradáveis, apelando ao emocional das massas para promover um falso discurso de iminente mudança (para melhor). Ainda que esta manobra, na teoria, possa mesmo ligar os discursos às ações, na prática apenas ocultam problemas para fortalecer a ordem precária das coisas. É a história do pai que muda o sofá de lugar para que a filha ou filho não possam namorar.

Intervenção na UEB-SP

A região de São Paulo aboliu o lenço regional e o trocou pelo lenço degradê da nacional. Com tantos sinais de pista, poderia terminar o texto aqui. Mas o que deveria ser uma ação administrativa, um ato de ofício qualquer, transformou-se numa bela e emotiva campanha de “Espirito de União” (leiam aqui).

Ficou decretado, portanto, que a partir da abolição do lenço regional, nos baixará o santo da fraternidade e nunca mais veremos ameaças de diretorias para que grupos participem de atividades, nem intervenções ilegais e, claro, a partir do próximo Jamboree Nacional teremos 100% de adesão da juventude no evento, muito diferente dos 5% atuais. Quase que me tenta patrocinar a hashtag #aUniãoEmDegradê.

Quem sabe, o próximo passo seja usar a bolinha roxa da WOSM como distintivo de promessa. Aí sim sentiremos um verdadeiro espírito de fraternidade, mas, desta vez, do mundo mundial.

Mas, como dizia, todos deveriam aprender (jovens e adultos) que nada no escotismo vem assim, inocente, altruísta e de boa vontade, independente da associação. Como qualquer organização que tem seu controle distante da base (a escotista, em nosso caso), somos apenas frutos do meio – com tudo de relativamente bom, mas principalmente de ruim que há nisso.

Depois do período de assembleias regionais, este blog recebeu diversos e-mails sobre uma possível intervenção da nacional na Região de São Paulo. O motivo era que a região trabalhava com dois CNPJs. Um deles, vinculado à nacional e de uma gestão cujo diretor-presidente já faleceu, ainda estava sendo usado e isso gera problemas administrativos e judiciais.

No outro lado deste acontecimento, a nacional vem apostando em uma política centralizadora. Ou seja, a centralização de vendas, a centralização de decisões e, claro, a centralização de poder em apenas dois órgãos: CAN e DEN e, por muitas vezes, em agrupações políticas dentro destas instâncias.

Na medida em que nos dizem que a abolição de um lenço nos dará este aguardado sentimento de pertencimento ao conjunto, a uma associação, as diretorias nacionais trabalham para que a base se mantenha longe do poder decisório. Já é sabido que não se pode chamar de democracia a possibilidade de apertar um botão a cada quatro anos, assim como não se pode chamar de democracia a multiplicação de votos e esta espécie de criminalização do debate da política escoteira.
Inclusive, foi com certa graça que vi um integrante do “Conselho dos Velhos Lobos” pedindo para não atiçar o povão contra a direção nacional do escoteiros. Sim, o povão.

Não é inocente, como mencionado, que a delegação paulista se apresente com lenços da nacional e diga que aboliu seu lenço regional, promovendo esta “unidade centralizadora” diante de uma possível intervenção na própria casa. Não é inocente, também, que esta região pegue um ato seu e o transforme em um autêntico espetáculo de promoção deste poder centralizado. Não é inocente – e diria que há uma pitada de puerilidade – que afirmem que o sentimento de “unidade” se promove com trocas de lenço.
O que pretendem? Afirmar que as regiões que optaram por um lenço próprio não estão enquadradas no espírito de união e fraternidade?

Na contramão das demandas vigentes, onde se prima pelo direito à autodeterminação e controle popular, os escoteiros do Brasil uma vez mais se fecham na concha de seu plano particular de “governança”.

Atualização 11/05
Os dois CNPJs ainda ativos da Região Escoteira de São Paulo:

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12 pensamentos sobre “Fica decretado: abolir um lenço nos enche de sentimento de unidade.

  1. Preocupado com a assertiva de que “um integrante do “Conselho dos Velhos Lobos” pedindo para não atiçar o povão contra a direção nacional do escoteiros. Sim, o povão” … Então ter-se-ia instrumentalizado um Velho Lobo para que com a “patinha” dele se retirasse a “batata do fogo”? Um Velho Inocente Lobo Útil ? Preocupo-me pois estou associando a pessoa á frase e parece-me que não gostarei que venha a ser confirmada a suposição. DOIS CNPSJs? e como ficou a declaração do espolio da Autoridade falecida ?E a ComFiscal ( fiscal da Lei) não se arvorou em grande gala ? Porque ao ler o teor do post a definição de fascismo vem novamente á tona? Ah! deve ser : ” e obedecer a UEB”. Mais um ponto: Espero que o povão se aglutine neste meio eletrônico de informação.

  2. Lamentamos os rumos que toma essa instituição, movida por demandas internacionais, que relevam nossa diversidade psico-sócio-econômica de país continental, desconhecem os mínimos princípios de Psicologia em favor de máximos (e convenientes) princípios de Sociologia, que desagregam e decantam valores permanentes em favor de valores transitórios no cumprimento da missão delegada pelo Fundador desse Movimento Escoteiro. Lamentamos a obtusa e desconexa diretriz que nos afasta de identidade.

  3. Sinceramente, acho até bonito esse lenço furta-cor. Contudo, embora sinceramente ache esse tema um “assunto menor”, já que não é a cor do lenço que faz o escoteiro; nem o uso do mesmo lenço é significante de qualquer símbolo de unidade ou unificação, devemos lembrar que o nosso escotismo nacional tem como traço histórico, a variedade de matizes. E isso se deu porque a história do ME nacional se deu, de modo diverso em cada Região do país, como aliás, seria mais do que natural, dado o tamanho do nosso território. Contudo, parece-me que sempre há uma tentativa da nossa associação, de pretender apagar essa história, retirando todos os característicos que a antecederam e pretendendo estabelecer o monopólio do formato “Escoteiros do Brasil” para todo o país, já que não foi feliz na tentativa jurídica de impor-se como “a única instituição nacional autorizada a praticar o escotismo no Brasil”.
    Assim, adota um comportamento institucional massificado, de imposição de seus pontos de vista a todos, “fingindo” ser a única, como se não existissem outras associações em território nacional.
    Isso, além de ser um procedimento totalmente xenófobo, já que institucionaliza a figura do “nós” e “eles”; ou pior, do “nós” contra “eles”, mostra-se bastante antidemocrático; aliás, bem acorde com a atual visão pela qual nosso mundo atual anda encarando as coisas.🐗.

  4. Sinceramente, acho até bonito esse lenço furta-cor. Contudo, embora sinceramente ache esse tema um “assunto menor”, já que não é a cor do lenço que faz o Escoteiro; nem o uso do mesmo lenço é significante de qualquer símbolo de unidade ou unificação, devemos lembrar que o nosso Escotismo nacional, tem como traço histórico, a “variedade de matizes”. E isso se deu porque a história do ME nacional deu-se de modo diverso em cada região do país; o que, aliás, seria mais do que natural, dado o tamanho do nosso território. Contudo, parece-me que sempre há uma tentativa da Associação, de pretender apagar essa história, retirando todos os elementos característicos que a antecederam e pretendendo estabelecer uma espécie de monopólio do formato “Escoteiros do Brasil” para todo o país, já que não foi feliz na tentativa jurídica de impor-se como “a única instituição autorizada a praticar o escotismo no Brasil”. Assim, adota um comportamento institucional massificado, de imposição de seus pontos de vista a todos, ‘fingindo’ ser a unica, como se não existissem outras associações escoteiras em território nacional.Isso, além de ser um comportamento totalmente xenófobo, já que dissemina o conceito do “nós” e “eles”; ou pior, do “nós contra eles”, mostra-se bastante antidemocrático; aliás, bem acorde com a atual visão pela qual nosso mundo atual anda encarando as coisas.

  5. Prezados companheiros!
    O objetivo da criação do Conselho de Velhos Lobos (aqueles que tem 50 anos ou mais de Escotismo) é ativar uma força de trabalho que há muito tempo está sendo deixada de lado, tendo ainda reconhecidamente, muito c/ que contribuir. São Escotistas e Dirigentes mais velhos mas não inúteis. Alguns ainda em atividade. Seu conhecimento é amplo e sua disposição de servir continua a mesma. Apresentar sugestões, lembrar atividades já esquecidas, relembrar ações de Místicas & Tradições esquecidas pelo desuso, farão parte de suas tarefas. A primeira será a montagem de um Manual de Jogos Noturnos, robustecendo nossa literatura.Aproximar as gerações, mostrando que podem coexistir quando trabalham juntas na mesma direção.
    Embora os entendidos dizem que não existe vida sem política, não há neste Conselho objetivos políticos!
    Elmer S. Pessoa

  6. Só para deixar minha indignação !!! Trocar o nosso símbolo de promessa é um tremendo absurdo !!! Cada vez mais existem pessoas pequenas que querem mudar tradições , algo que é nosso para fazê-lo da formas de outros que não são da nossa laia !!! Pessoas pequenas que simplesmente querem vir e tirar cara vez mais o que é nosso !!! Já não basta os politicos fazerem o que querem do nosso país , agora me vem uns e querem tirar o que é nosso a Flor de Lis nacional de promessa !!!
    Meu ler mais escotismo para rapazes , vai procurar criar maneiras de ajudar jovens carentes a participarem de eventos regionais , vai procurar manietado de diminuir os valores absurdos das inscrições em eventos regionais e nacionais !!!
    Vai procurar o que fazer !!!

    .

  7. Só para deixar minha indignação !!! Trocar o nosso símbolo de promessa é um tremendo absurdo !!! Cada vez mais existem pessoas pequenas que querem mudar tradições , algo que é nosso para fazê-lo da formas de outros que não são da nossa laia !!! Pessoas pequenas que simplesmente querem vir e tirar cara vez mais o que é nosso !!! Já não basta os politicos fazerem o que querem do nosso país , agora me vem uns e querem tirar o que é nosso a Flor de Lis nacional de promessa !!!
    Meu vai ler mais escotismo para rapazes , vai procurar criar maneiras de ajudar jovens carentes a participarem de eventos regionais , vai procurar manietado de diminuir os valores absurdos das inscrições em eventos regionais e nacionais !!!
    Vai procurar o que fazer !!!

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  8. Que as mudanças políticas, não afetem (MAIS) o Escotismo, em sua essência, pois ele já está tão fraco, que até não sabemos mais como dar continuidade aos trabalhos.
    Me sinto a cada ano, mais desmotivado, só vem o ânimo, quando encontro companheiros em alguma atividade, pra lembrar dos bons tempos.

  9. Boa tarde! Essa é uma grande e profunda discussão que vai se ramificando em infinitas direções do que vem se tornando o Escotismo Brasileiro… Mas pretendo tecer um breve e rápido comentário e até, de brincadeira, puxar o rabo do Javali Cinzento, que disse que até acha o furta-cor bonito! Até porque achei que o amigo (permita-me essa intimidade!) foi de certa forma irônico! Mas eu digo que essa troca do Lenço nacional, que eu enverguei tantas vezes com orgulho, de um lenço sóbrio, elegante e significativo, rico até eu diria, pelo furta-cor é praticamente a materialização do revisionismo extremo que se verifica atualmente. Diria que a mudança praticamente foi um chiste… Pra não dizer triste… Cômico não fora trágica… Mas é sinal dos tempos… Ele é a imagem e a foto que simbolizam essa corrente, esses rumos… Lamento pelo extinto… E não me sinto de forma alguma representado pelo atual… Abraços, e perdão ao Javali Cinzento pela intimidade!
    Lobo Guará da Mantiqueira

  10. Que absurdo: tantos problemas para serem resolvidos e um bando de idiotas querendo mudar as tradições do escotismo, sou contra a mudança de lenço.

  11. Companheiros, vamos procurar deixar algumas informações e opiniões sobre esse tema.
    a – Claro que existem coisas bem mais importante do que a troca de lenço.
    b – O lenço usado ultimamente pela DN , se é bonito ou feio, é uma questão de gosto pessoal., não podendo ser generalizado (eu pessoalmente acho feio e que não devia ter mudado). Não há justificativa que embase a mudança e sim, que justifique a não mudança, (tradição) .
    c) – São Paulo não mudou p/ o lenço da DN. abolindo seu lenço da Região de São Paulo. Foi usado apenas na ultima Assembleia Nacional p/ transmitir um “espírito de unidade”. Continua existindo o lenço da Região de São Paulo.
    d) – Esse fato gerou algumas sugestões p/ que todas as Regiões usassem o lenço da DN c/ o mesmo objetivo. Apenas sugestões, não existindo nada oficial.
    e) – Como tudo na vida existe os favoráveis e os contrários.
    f) – Para tornar-se “tradição” é necessário manter da mesma forma, durante muitos anos. Infelizmente (ou felizmente p/ outros) as Regiões tem mudado seus lenços, de tempos em tempos minando a tradição.
    g) Volto a letra “a” que considero a mais importante! Deixem como está!
    Elmer S. Pessoa

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