Eles não são escoteiros.

250_Million_Scouts_(László_Nagy)Existem os que acreditam que para ser escoteiro devemos cumprir alguns requisitos, seguir certas regras, protocolos. Também há os que pensam que para ser escoteiro basta com que nos denominemos como tal; ou que devemos passar pelo crivo de uma ou outra associação. Há os que pretendem acabar com o assunto, simplesmente afirmando que são escoteiros somente os que estão filiados a uma organização e suas representantes nacionais.

É justo que nos perguntemos se poderia existir a prática do escotismo fora da Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM) e de suas representantes. Ou se, ao contrário, qualquer associação escoteira poderia ser considerada como legítima. Indo além e à margem de associações, poderíamos nos perguntar se qualquer pessoa que se diz escoteira poderia ser considerada como praticante do escotismo.

Entendo que é unânime quando optamos pelo não nesta última questão. Existem certos requisitos que devemos cumprir para participar do movimento. As perguntas, na verdade, seriam:
Quais seriam esses requisitos?
Quem os estabelece?
E, claro: existe alguma forma de escotismo fora da WOSM, a principal organização escoteira do mundo?

Estas dúvidas passeiam pelo movimento escoteiro brasileiro e até figuras como a de um diretor-regional podem tê-las, mesmo que tentem respondê-las por um repertório argumentativo de pouca profundidade e uma ótica de acusação pela acusação. E, aqui, nem volto ao tema das questões semilegalistas, de uso exclusivo de nomenclaturas, de decretos, que se parecem mais a uma doutrinação do que algo que poderia realmente educar jovens e adultos em escotismo.

indepen-scout

 

A WOSM
A Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM) se considera legitimada a dizer quem, no mundo, pode ser considerado como um seguidor dos fundamentos do escotismo. Esta autoridade, alega a organização, vem do próprio fundador do escotismo que, ao perceber a internacionalização e expansão do movimento, considerou a formação de uma organização que se regulamentasse em 1920.

Esta formação se fez necessária para que o movimento escoteiro não fosse confundido com outras organizações juvenis ou para evitar que ações discriminatórias e negligentes fossem atribuídas ao escotismo. Ao longo dos anos, essa estratégia se mostrou parcialmente efetiva, sobretudo pelo nascimento de juventudes ligadas a regimes fascistas, mas não privando a organização mundial de seus próprios casos de desvios.

Então, mesmo tendo criado um método para que, segundo suas próprias palavras, fosse aplicado em qualquer agrupamento juvenil, Baden-Powell cedeu à ideia de uma organização mundial para nortear as associações nacionais e manter uma certa coerência no projeto educativo. Para isso, além da própria criação da WOSM em 1920, em agosto de 1924 foi lançada uma resolução por intermédio da Conferência Internacional de Escotismo realizada em Copenhague, onde pretendiam definir o movimento. Vejam:

“O movimento escoteiro é um movimento de caráter nacional, internacional e universal, cujo objetivo é dotar a cada nação e todo o mundo com uma juventude física, moral e espiritualmente forte.
É NACIONAL porque, através das associações nacionais, oferece cidadãos úteis e fortes a cada país
É INTERNACIONAL porque não reconhece barreiras nacionais para a camaradagem dos escoteiros em todos os países
É UNIVERSAL porque insiste na fraternidade entre escoteiros de todas as nações, classe ou crença”.

Além disso, foram incluídos elementos para que o movimento escoteiro tivesse uma característica própria, singular:

  • A Lei e a Promessa Escoteira, sobre as quais giram as demais características;
  • O aprender fazendo (o conhecido “learning by doing”);
  • O Sistema de Patrulhas (organização em equipes);
  • Um marco simbólico sobre o qual se desenvolver, considerando a capacidade imaginativa do jovem;
  • A progressão pessoal, onde cada jovem a realiza de acordo com suas possibilidades, adquirindo a confiança necessária;
  • As atividades na natureza como cenário ideal para a ação educativa;
  • A interação entre jovens e educadores, o apoio de adultos baseado na cooperação voluntária de todos;
  • O serviço ao próximo e ao coletivo.

scoutsworldBasicamente, estas são as características fundamentais para que alguém possa ser considerado um escoteiro ou para que uma associação nacional afirme que está praticando o escotismo.
Devemos concordar que estes requisitos não são extravagantes: seus limites são flexíveis, não tratam de questões de imagem, de tradições, de uniforme, e tudo isso oferece liberdade às associações filiadas. Seria um caminho fácil de seguir por qualquer associação nacional. A charada de “quem seria um praticante do escotismo?” poderia terminar aqui.

Federação
Acontece que a diversidade (sobretudo religiosa e cultural) em muitos países contribuiu para o surgimento de várias associações com características próprias e, mesmo com a intenção de terem a WOSM como representante mundial, não estavam dispostas à união. Foi o caso de países como Bélgica, Alemanha, França ou Itália. Nesta época, o entrave era gerado pela própria WOSM, que não se sentia capaz de admitir mais de uma associação por país.

Para contornar esse problema, a Organização Mundial optou por uma solução federativa. Admitiria o formato de federação de associações em países que não fossem capazes de se unificar diante de certos critérios, ou bem religiosos ou bem culturais. Esta postura, hoje, ainda faz parte da Constituição da WOSM.

Colocadas as características que nos ilustram quem poderia ser chamado de “escoteiro”, uma pergunta ainda persistiria. Se os requisitos não são extravagantes, qual é a necessidade de se criar “associações independentes”? Por que não se uniram ao redor de uma federação?

Porque estes critérios para federação são complexos, genéricos e não são aceitos por qualquer motivo. Essa flexibilização direcionada chegou a tal ponto que Laszlo Nagy, Secretário-Geral da WOSM entre 1968 e 1988, questionava o rigor desproporcional com que era aplicada. A fala de Nagy poderia ser atribuída, por exemplo, à flexibilização no reconhecimento de federações na Europa e na dureza do impedimento na América do Sul. No caso do Brasil, a representação por uma “federação” é um pensamento coibido, distante, descartado às pressas, mesmo que se encaixe nas definições da WOSM e seja uma ferramenta plausível para uma escotismo nacional com sintomas de incapacidade de gerir nacionalmente. Se por um lado temos escoteiros (com todas as características apontadas), por outro estão obrigados a se alinharem a uma única visão associativa.

Laszlo Nagy, em seu livro 250 milhões de Escoteiros, aponta três elementos que poderiam causar estas divisões em associações.

  • O fator religioso;
  • O fator cultural, pela identificação com um coletivo nacional ou um determinado território com características próprias;
  • A diferença na interpretação das características diferenciais do escotismo em cada associação; o conflito sobre a visão do associativismo.

E aqui, voltamos ao problema: a WOSM admite uma separação controlada por intermédio de federações, mas apenas reconhecendo os dois primeiros elementos como válidos. As questões como atualizações metodológicas, simbologia, progressão, uniformização ou políticas associativas NÃO SÃO consideradas como motivo dessa separação.

250_Million_Scouts_(László_Nagy)O que isso significa? Significa que se uma associação nacional decide mudar algum desses elementos, aqueles que não aderirem serão considerados não-escoteiros e não terão melhor remédio do que ir embora – e, muitos, formarão as versões “independentes” quando poderiam optar pela associação dentro de uma federação. No Brasil, o cenário fica ainda pior: os que não concordam devem sair para, a seguir, responder judicialmente por qualquer iniciativa escoteira, mesmo que atenda aos mesmíssimos requisitos da WOSM.

Isso é um absurdo e carece de lógica, já que o que se preconiza é o pensamento de que antes da mudança nada era escoteiro, era um falso escotismo – ou ninguém ouviu o “antes eram mateiros, agora são bons cidadãos”? No Brasil, a situação se agrava porque não basta apenas admitir que há um contraditório ou que possam existir os que não estariam de acordo; a associação nacional também os qualifica de saudosistas, de descartáveis, clandestinos e, ademais, se esconde maliciosamente no jovem como figura-chave de mudanças quando nem sequer existe esta participação juvenil. A atitude não é, nem de longe, conciliatória. Ou você aceita ou…você aceita.

O próprio Laszlo Nagy era consciente desse problema e afirmava:

Existem importantes associações não-reconhecidas que crescem e continuarão crescendo, com ou sem reconhecimento. Dever-se-ia ter maior inclinação a buscar soluções, para o bem de jovens das associações dissidentes e não reconhecidas.

Eduardo Missoni (antigo Secretário-Geral da WOSM) responde dessa maneira, em uma palestra recente no Peru, à pergunta sobre se membros da WOSM deveriam participar em atividades com membros de associações escoteiras independentes (Peru, 2013):

Absolutamente sim. Se não somos capazes de sair desse nosso círculo, dessa nossa concha, e participar ativamente da sociedade, inclusive com aqueles que possuem uma visão diferente da nossa….ainda não entendemos o que é ser escoteiro.”

Eduardo_Missoni_2007_World_Scout_Jamboree

Eduardo Missoni

É evidente que a evolução metodológica e de imagem mudou elementos que formavam parte da cultura associativa, provavelmente causando as cisões. Porém, como se aponta acima, a WOSM não considera este elemento como justificativa suficiente para admitir uma federação.

Esta evolução, constantes mudanças e, principalmente, como são feitas podem parecer algo tolo para motivar uma separação. Ainda assim, as atualizações bruscas, mesmo realizadas com boa intenção, mexem com associados, ainda que outros possam achar normal. E não devemos simplesmente menosprezar ou pregar qualquer adjetivo pejorativo a este sentimento, a esta realidade.

Coloquemos como exemplo a importância de uma imagem. Para alguns, pode que seja algo sem importância, mas a expansão do escotismo pelo mundo nos seus primeiros anos foi baseada no elemento estético: fotos, desenhos e simbologia que despertavam a imaginação e o desejo de aventura.

É claro que existem e existirão casos em que a separação ou o próprio ato de apontar a dissidência sejam motivados pelo afã de poder, pelo desejo de projeção ou de se sentir proprietário de algo. Mas estes casos tendem a não ter um futuro próspero. Portanto, não seria mais adequado aceitar como escoteiros todos aqueles que sigam os requisitos básicos propostos pela WOSM, mesmo que não filiados?

Não seria mais lógico pensar em uma forma de federação que respeitasse as diferentes culturas associativas e diversidades no país?

Por que deixamos essas associações à margem?

Por que não trocamos a política da acusação de “falsos escoteiros” por uma política de diálogo e conciliação?

Quais benefícios conseguimos com essa classe de discriminação?

Mesmo que nos custe encontrar as respostas, deveríamos nos fazer essas perguntas para reavaliar as posições tomadas nos últimos anos no escotismo brasileiro.

Grato ao blog La Roca del Consejo por ter trazido o assunto à tona.

11 pensamentos sobre “Eles não são escoteiros.

  1. Retomo esta parte do discurso:
    [..]
    O fator cultural, pela identificação com um coletivo nacional ou um determinado território com características próprias;
    [..]

    Acredito que seja a base para a Federalização do movimento neste Pais de dimensões continentais. A cultura do RS, por si só ja é bastante suficiente para que se pense sobre o escotismo nas proprias fronteiras. No norte do Pais temos outra cultura. No Pantanal mais uma. Já não entendo o porque os vários dialetos brasileiros estejam sendo suprimidos em prol de um “portugues padrão GLOBO”

    E não posso deixar escapar o aplauso por ler de outra fonte que não a minha: “por uma politica de dialogo E DE CONCILIAÇÃO.

  2. Quando fiz minha promessa em Março de 1975, meu chefe me cumprimentou e disse uma frase que eu esperava tanto ouvir: – Agora você faz parte da Fraternidade Mundial dos Escoteiros.

    Então, entendi que, após me comprometer com a Lei e Promessa Escoteira, passei a ser escoteiro de fato!

    Saliento que já estava registrado no grupo escoteiro e na UEB há mais de um ano
    (antigamente este era o tempo médio para ser ESCOTEIRO NOVIÇO ).

    Até então, eu ainda não era um escoteiro, era um profano, um pata tenra, como se diz em nosso jargão. Passei a ser ESCOTEIRO NOVIÇO, após realizar minha promessa, mesmo já tendo a carteirinha há um ano.

    Nestes 40 anos de vida escoteira acredito que este seja o único fator para alguém ser considerado Escoteiro… Estar vivendo de acordo com a Lei e Promessa Escoteira. E nestes 40 anos assim ensinei aos escoteiros a quem tive a felicidade de orientar. Então terei eu os orientado errado?

    O próprio B.P. Classificava como Escoteiros personalidades a quem ele se referia como exemplo a ser seguido, incluindo aí os Cavaleiros da Távola Redonda ( que não existiram e certamente não tinha careteirinha da Wosm.

  3. Me identifiquei muito com o texto e achei a argumentação muito coerente e embasada. Não é somente a opinião pela opinião, mas sim por algo real, justo e necessário de diálogo.
    Fiz minha promessa em 1995, sendo a terceira geração de escoteiros da família e como me orgulho disso. Infelizmente me afastei da instituição mas, como digo, não do escotismo.
    O escotismo me ensinou a importância de cuidar de mim e do próximo, de buscar uma forma de tornar o mundo melhor para todos, sem importar as diferenças, sejam elas qual for. Isso é ser Escoteiro, é ajudar e não discriminar.
    Não me identifico com as novas propostas educacionais de como aplicar o escotismo, posso me encaixar nos saudosistas para alguns, mas acho que esse não é o ponto. O fato é que o escotismo deixou de ser para os jovens e passou a ser para auto-promoção. Pelo menos é o que vejo em minha volta.
    Sempre serei escoteira, com ou sem registro. Fiz uma promessa de ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião, cumprir meus deveres cívicos e seguir os preceitos da Lei escoteira e irei segui – los até o fim da minha vida, não importa o que digam.

    • [..]
      Não me identifico com as novas propostas educacionais de como aplicar o escotismo
      [..]
      Muito feliz a comentarista neste seu ponto. As propostas jparecem não serem mais educacionais e a aplicação do metodo escoteiro parece estar sendo abstardada a cada “circulo da vida administrativa”. Hoje, não se sabe o que é um ASPIRANTE, por exemplo. O “querer fazer a promessa” foi substituido pelo “vai lá e pega a sua”.

  4. Eu acho que essa questão envolve muito mais política e dinheiro do que propriamente a filosofia e metodologia. Afinal se analisarmos um Jamboree Mundial por exemplo, qual seria a vantagem da UEB em termos de arrecadação de taxas de participação se outras associações não filiadas, decidirem participar por vias próprias? E por aí continua o raciocínio…

  5. Achei muito interessante a observação do articulista:

    “ É claro que existem e existirão casos em que a separação ou o próprio ato de apontar a dissidência sejam motivados pelo afã de poder, pelo desejo de projeção ou de se sentir proprietário de algo. Mas estes casos tendem a não ter um futuro próspero”.

    Concordo que a “cisão motivada pelo “afã de poder, desejo de projeção”, etc” sejam iniciativas que tendem a não ter um futuro próspero. Se no nível local os chamados “Grupos com donos” tendem a não ser espaços democráticos, ou mesmo saudáveis para a aplicação do método escoteiro, não acho que a prática deva se replicar em outros níveis associativos superiores.

    Contudo, a realidade das associações ditas “piratas” parece não fugir dessa regra: todas, sem exceção, são associações de “único dono”, facilmente nominados.

    Também acho que o artigo poderia ter abordado as situações de líderes adultos que são excluídos da UEB em razão de práticas ilegais ou inadequadas, como apropriação de recursos alheios, e vão direto para as outras associações para que possam perpetuar as referidas práticas, sob o véu do movimento escoteiro, sem serem incomodados.

    • O companheiro Gomes coloca com muita propriedade a situação dos adultos ( ja evitaria o uso de leader, pois que se apropria não é leader nem da propria vida ) que SE DIZ que se apropriam do patrimonio comum. Acontece que ha uma conivencia organizacional pois voe não pode ler em local algum a decisão associativa de afastamento. Pode acontecer de se fazer um processo a uma intenção. Pode acontecer que não se tenha dado espaço á defesa. Portanto acredito que o Companheiro Gomes esteja pedindo pela TRANSPARENCIA, e nesse pedido… me associo. Bons caminhos

  6. Não importa o que diz ou determina a WOSM ou a UEB, Se sigo as doutrinas, os ensinamento, as práticas, a regras de BP e se sou seguidor dele, então sou escoteiro. Não importa em qual entidade eu pertenço, continuarei sendo escoteiro….

  7. olá, faço parte de uma igreja com bastante jovens que querem inciar um projeto de escotismo, qual o problema? a cultura empregada pela instituição Escoteiros do Brasil me impede de qualquer associação com a instituição, por ser diferente do que a igreja tem como ideal… Minha duvida é se posso criar um grupo utilizando o nome escoteiros ou se para minimizar os problemas com a Instituição devo trocar a palavra escoteiros por outra parecida?

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