Minha primeira vez.

escoteirosemprealertaAdmitamos que a primeira vez é estranha ou, como pouco, peculiar. Aquele período que se passa da escola a uma faculdade e desta ao mercado de trabalho; o primeiro dia no ambiente laboral; ou a passagem de uma pré-escola para o ensino fundamental.

Meu primeiro dia no movimento escoteiro não foi diferente.

Levado pelo irmão mais velho, visitei, do alto dos meus 10 anos, cinco unidades escoteiras locais diferentes; quatro estavam em férias (férias no escotismo?) e uma única já havia iniciado as atividades. Nesta última, eu passaria os próximos oito anos da minha juventude.

Fui recebido pelo Chefe da Tropa de Escoteiros (era, salvo engano, fevereiro e eu completaria 11 anos em abril) e ele me indicou a Patrulha que deveria ficar, apresentando-me a um camaradinha estranho que presumi ser quem comandava aquela equipe de cinco ou seis rapazes. Aqui, acabou o papel deste “chefe” e entrou a figura do monitor. Ele, o monitor, me recebeu e me apresentou aos outros patrulheiros. Nisso, soam três silvos e todos que estavam a minha volta começaram a correr em um combinado de confusão e rapidez. Segui meus novos amigos de Patrulha (como valeram as brincadeiras de pic-pega) e, mesmo assim, fui o último a me colocar em formação.

– “Chefe, Sempre Alerta Patrulha Leão!”, disse o monitor, um rapaz já mais velho que os outros e mais alto que o normal para essa idade.

“Leão?”, perguntei-me.
No bastão, empunhado pelo monitor, vi uma flâmula de cor laranja e vermelha tremulando com os dizeres “Leão”, e guardei a pergunta para mais tarde.

O Chefe colocou os olhos sobre nossa formação e sinalou um “não” com a cabeça. Preso em fúria, com o rosto vermelho, o monitor colocou o bastão na posição horizontal e o passou por nossas costelas, um a um, insistindo que permanecêssemos em linha reta. Na volta, ao passar por mim, esbravejou ele: “e você olhe para minha nuca”.

“Mas o que está acontecendo aqui?”, voltei a me perguntar.

Dessa vez, o chefe sinalou um “sim” na apresentação da Patrulha, e eu já torcia para que a manobra do bastão não voltasse a se repetir. Naquele mesmo dia, no encerramento das atividades, se não fui o primeiro, provavelmente fui o segundo a entrar em formação.

MEETING

Depois do hasteamento que, se me permitem, é uma cerimônia e não uma atividade escoteira, fomos liberados para colocar uma “roupa de guerra” – imagino que o termo tenha sido já descartado. Foi quando conheci o “Canto de Patrulha”: um espaço pequeno com alguns troféus, uma caixa no chão onde nos sentamos e algumas bugigangas de acampamentos.

Como bom pata-tenra, tinha ido com minha melhor roupa para a atividade e não havia nada que trocar. Dois toques rápidos de apito foram dados e, antes que eu pudesse correr, o monitor me orientou sobre o significado desse chamado e foi sozinho ter com o Chefe de Tropa.

Dez minutos mais tarde, notei que o monitor voltou dessa conversa bastante encabulado, com lágrimas nos olhos. O submonitor parecia querer tranquilizá-lo, mas as lágrimas agora brotavam sem parar.

Façamos um reconto.
Chego a um ambiente novo. De primeira vejo que todos somos leões e, logo, recebo uma reprimenda com um bastão por algo que entendi não estar fazendo mal. Antes que pudesse me recuperar, o monitor aparece chorando. Estava quase desistindo da ideia de “escotismo”.

O monitor em questão passaria para a Tropa de Seniores no sábado seguinte: parece que a idade já avançada, a estatura e, sobretudo, o choro estavam agora justificados.

Sem entrar nos meandros das atividades seguintes, nem do primeiro acampamento, ao qual levei um prato (pasmem) de vidro e ainda o lavei com areia (o fato me custou uma reprimenda da mãe), houve uma restruturação da Tropa e acabei por fundar a Patrulha Falcão, já com a Segunda Classe presa ao uniforme cáqui. É com certo orgulho que, depois de 23 anos, ainda recebo notícias da existência dos falcões. A última vez que os vi, carregavam um bastão que havia mandado fazer em um marceneiro perto de casa. Não sei o motivo, mas lhe pedi que não incluísse a ponta de ferro, que geralmente era feita com aquelas barras que dão forma às vigas em obras. Com isso, talvez tenha evitado aquele tormento que sempre pairava em um acampamento: o de ser cortado pela ponta de um bastão.

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Mandar fazer o uniforme em uma costureira foi todo um acontecimento naquela tenra idade. Aos sábados, dedicava uma hora para me colocar “guapo”, verificando se não havia pulado nenhum botão da camisa ou tirando aquelas bolinhas brancas do meião cinza. Queixo-me, isso sim, do bendito Kichute. O cordão parecia ter uns cinco metros de comprimento e, para amarrar o que sobrava, não tínhamos melhor ideia que dar voltas na canela, o que dificultava a circulação, causava coceiras e  nos fazia penar nas jornadas.

A cor predominante nos distintivos (o verde) naquele então parecia cair como uma luva no tecido cáqui. Era bonito ver o distintivo de Promessa, o de Primeira Classe e até mesmo aqueles cordões brancos presos aos bolsos, indicando qual encargo (monitor ou submonitor) você ocupava. Nos sentíamos dignos de vestir aquele uniforme.

diaescoteiro

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4 pensamentos sobre “Minha primeira vez.

  1. No meu tempo…. as cores dos Leões era: fundo amarelo , debrum vermelho e o perfil do animal em idem. Mas…. se na patrulha do Articulista era “laranja” …. risos

  2. O Articulista, creio que era do tempo que sob o distintivo de promessa podiam serem encontradas quer 1, quer 2 ou quer uma unica 3 fitas brancas asd quais juntas cobriam todo o macho do bolso. Portanto, macho ( do bolso… ) branco era o Guia, O Monstro. O Presidente da Corte de Honra. O adjunto do Chefe da Tropa. O cascudo

  3. 23 de abril, no mundo é o dia do Patrono. São Jorge. Porem nestas terras aonde o sincretismo religioso predomina, lembrar-se dos Patronos dos ramos é demodéé. Porem, todos para a JMJ !

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