A régua que mede o escoteiro.

Sempre houve, é verdade, certos tabus no movimento que até hoje não ousamos quebrá-los ou, no mínimo, entendê-los. Fala-se pouco de Frederick Burnham ou Duns Scotus, ou da participação do escotismo na guerra, ou talvez sobre a eterna discussão entre escotismo confessional vs. laico, assim como outros assuntos que, juntos, ficam guardados na caixa de patrulha. E se já não nos sentíamos confortáveis com estes temas, eis que chega a internet e nos diz que devemos lidar com a pluralidade de associações.

Se não bastasse a tremenda (para nós, brasileiros) notícia, com ela veio, infelizmente, uma régua invisível, imaginária, para se medir o quão escoteiros podemos ser.

Escoteiros sim, escoteiros não? Afinal, quantos somos?

Ofereço um café mateiro, banana assada recheada com raspas de chocolate e farofa de bolacha a quem responder.

Em um desfile cívico, conheci os colegas da JUAD. Na verdade, eu estava longe do palanque quando ouvi parte do anúncio “Passando agora a Associação Escoteira dos….” Não percebi se foi erro do locutor, mas, dias depois, localizei o site e pude ver o trabalho que realizam – um trabalho bom e, aliás, nada diferente do nosso.

Fundada em 1994, a JUAD atua no território nacional e faz o que costumamos fazer: tem como slogan formar bons cidadãos, ensina a “arte da exploração”, técnicas mateiras, etc. Ou seja, o escotismo. Como detalhe, os membros da JUAD são de cunho confessional como poderia ser, por exemplo, o escotismo católico.

Por outro lado, uma das primeiras postagens do “Café Mateiro” fazia referência aos Escoteiros mirins. Os colegas se perguntarão se isso não é um almanaque da Disney. Sim, e por intermédio desse almanaque, por certo, muitos conheceram o escotismo.
Acontece que, navegando pela internet, vejo que os escoteiros mirins não só são desenhos, mas que de fato existem em uma cidade no norte do Brasil.

Contatei com um dos responsáveis, que, por sua vez, narrou uma história muito bonita. O “escoteiro mirim” foi uma iniciativa de um militar reformado para ajudar sua comunidade. Pedindo patrocínio ao comércio local, conseguiu ocupar o tempo dessas crianças com atividades lúdicas, usando para isso o método escoteiro. Tempo esse que, se não fosse por essa manifestação escoteira, poderia ser gasto em um leque de condutas prejudiciais a essas crianças e que, hoje, presenciamos em cada esquina.

Como se vê, o que entendemos por escotismo é praticado pelo mundo sem que, às vezes, nem tenhamos notícia.


Então, o que seria um escoteiro e um não escoteiro?
Quem é mais escoteiro e menos escoteiro?

Essa é a resposta mais difícil. E arrisco a dizer que não há respostas; e se acaso existem, serão muitas. Mas em um pensamento acho que os colegas concordarão: escoteiro é aquele que se dispõe a seguir a Lei e a Promessa e, a partir disso, sua própria consciência.

Partindo daí, existem os que adaptam o programa escoteiro, mas que continuam sendo escoteiros. A adaptação feita pela JUAD ou pelos Escoteiros Mirins faz com que deixem de ser escoteiros?
Se aprendem a prática da fraternidade através de técnicas e jogos, adquirem qualidades de ajuda ao próximo e companheirismo, então mereciam e deveriam ser chamados de escoteiros.

Nada contra oferecer medalhas e outras honrarias escoteiras aos políticos notáveis que contribuíram com o país. Porém, não seria interessante se também as oferecêssemos a um bombeiro, um médico? Ou nomear como Escoteiro Chefe um cidadão que salvou uma família de um incêndio ou àquele senhor que esteve em serviço no Monte Castelo?

Por várias vezes vemos histórias na mídia local ou nacional de pessoas que desconhecem o escotismo, mas que agiram ou agem como autênticos escoteiros. E por várias vezes pensei: estas pessoas deveriam ter ao menos um diploma de “Escoteiro Honorário”.

É comum ver Baden-Powell em seus livros definir homens e mulheres como autênticos escoteiros por terem agido de forma correta nas mais variadas situações. Todos os amigos devem lembrar a história daquele garoto que conseguiu identificar um assassino apenas pelas suas botas. Esta história está no Escotismo para Rapazes como exemplo de quanto o escoteiro pode ser útil.

É a vez do exemplo…novamente.

Li um comentário no blog Roca del Consejo muito acertado: “Não devemos lutar contra o que não é escoteiro, mas demonstrar que nós, sim, somos escoteiros”. Resumindo: a resposta para o mau exemplo vem do bom exemplo.

Tive a oportunidade de viajar por alguns países e conhecer algumas associações escoteiras; em todas (ou melhor, na maioria) via-se o que presenciamos quando vamos a qualquer grupo: escoteiros praticando o escotismo; jovens sendo instruídos para ser bons cidadãos.

Porém, no desejo de demonstrar que somos bons ou melhores escoteiros, às vezes até criamos conflitos. Nota-se aqui e acolá o surgimento de termos como neo-escotismo, ou associações se proclamando tradicionais em tons pejorativos para se diferenciarem (ou distanciarem) uma das outras.

Na verdade, dizer-se escoteiro, mas considerar o irmão ao lado como um “meio escoteiro” ou pior, um “não escoteiro” causa uma ferida à fraternidade. Não é o símbolo, não é a cor, nem a nomenclatura que nos caracteriza, mas o que fazemos para seguir a Lei e a Promessa.

Dizemos que somos um movimento apartidário, sem distinção de credo, raça ou país de origem. Imaginemos, então, que o uniforme é a nossa pele e que nossa nacionalidade é a escoteira. Assim ficará mais fácil entender o que é fraternidade. Por isso, se me permitem o conselho, principalmente aos garotos e garotas: não importa se há distintivos de mais ou de menos no uniforme do colega, não importa se você se encontra com um companheiro com o lenço diferente do teu; cumprimente-o, converse com ele, troque informações e dê o seu exemplo de irmandade.

Exemplo também é o que deram os amigos uruguaios. Em 2007, o ano do centenário, sete associações e grupos sem vínculos associativos deram-se as mãos abertamente, assinando, no dia 28 de setembro, um reconhecimento mútuo conhecido como Declaração de Fraternidade Escoteira, que dizia o seguinte:

As associações que assinam se reconhecem como parte da Irmandade Escoteira, unidas por uma Lei e uma Promessa.

Somos crianças, jovens e adultos comprometidos livre e voluntariamente na nossa transformação e na transformação da sociedade por intermédio da ação educativa.

Promovemos este espaço aberto de Fraternidade Escoteira para compartilhar os valores do Escotismo, que não obriga o compromisso de outro tipo para nenhuma das partes, pois estas mantêm cada uma sua identidade, normas e características próprias.

Participaram do acordo:

  • Asociación de Guías Scout del Uruguay (AGSU – WAGGGS)
  • Scouts de Uruguay (SDU)
  • Movimiento Scout del Uruguay (MSU-WOSM)
  • Grupo Scout 18 de Julio (sem vínculo associativo)
  • Grupo Scout “Erevan 50”  (Unión General Armenia de Beneficencia)
  • Grupo Scout “Niño Chasque” (Asociación Uruguaya de Escultismo)
  • Grupo Scout Marino “Monte VI” (USTA)


“Nos reconhecemos como parte da Irmandade Escoteira, unidos por uma Lei e uma Promessa”
, diz o texto.

Não seria essa uma “medida” suficiente?

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6 pensamentos sobre “A régua que mede o escoteiro.

  1. Café Mateiro,

    Sou médico carioca, morador de Santos, e na infância, por cisma de minha mãe, não fui permitido fazer parte do movimento escoteiro.

    Anos passaram e, hoje com 3 filhos, tenho 2 deles engajados como lobinhos. No primeiro grupo do qual participou o mais velho, ele ficava constrangido porque a Chefe insistia em fazer o sinal da cruz. Ele se constrangia, pois não era rito de culto na nossa família o gesto católico.

    Entendendo um pouco do “espírito escoteiro”, no se parecer em muito com a postura de koinonia e comunidade acolhedora pregada no cristianismo, entendi a dificuldade dele, e nos encontramos bem no grupo Morvan 55, em Santos. Lá ele e a irmã se sentem em casa, felizes, com amigos dos mais diferentes credos, de cores e costumes diferentes.

    Todos são vinculados ao Movimento Escoteiro, mas entendo que o escoteiro deve sentir-se feliz ver sua “lei” praticada com graça por aqueles que a “confessam” pelos atos, e não necessariamente pelas insígnias que ostenta no uniforme.

    Quando vc diz que “Na verdade, dizer-se escoteiro, mas considerar o irmão ao lado como um “meio escoteiro” ou pior, um “não escoteiro” causa uma ferida à fraternidade”, me lembra muito o primeiro capítulo do Livro da Jângal, em que Bagheera, Baloo (nenhum dos dois lobos), Akelá e os pais lobos defendiam Mowgli como parte da matilha, mesmo não sendo lobo, mas por causa da sua postura. Enquanto os próprios lobos o afastavam por não ter as mesmas “credenciais associativas” (ser lobo de nascença).

    Parece que esta discussão tem raízes que eu desconheço, mas o espírito da discussão me é conhecido de outros “carnavais”…

    Um abraço, belo blog.

    • Prezado Bressan, grato pelo relato.
      Perfeita a referência sobre o Livro da Jângal, que trata do tema “acolhida”.

      Sua mensagem foi vista com alegria por membros do Morvan 55.
      Um abraço!

  2. Prezado amigo

    Nos tornamos mais escoteiros a pouco tempo. Eu e você. Já tinha visitado suas paginas no passado. Talvez o esquecimento me fez dar uma viagem em outros não menos desprezados.
    Gosto de ver blogs sérios, onde os artigos são importantes na educação escoteira e isso encontrei no seu.
    Parabéns. Farei deste uma rotina de viagem pela internet sempre. Continue assim, o escotismo devia reconhecer mais pessoas como você. Siga em frente, como dizia no passado, coloque sua mochila, cante uma canção e siga sempre nesta bela aventura!
    Osvaldo um escoteiro

  3. Maravilhoso texto! Totalmente de acordo! B.:P sempre dizia que certos homens e mulheres eram VERDADEIROS ESCOTEIROS! Quanto a conceder títulos de Ecoteiros Honorários, ou conceder medalhas oficiais, Os grupos escoteiros que estiverem próximos a estas iniciativas, podem conceder medalhas e diplomas. Organizar solenidade de entrega, em nome do ESCOTISMO , não precisa ser em nome da ASSOCIAÇÃO AO QUAL O GRUPO ESTÁ FILIADO. Lembro bem das palavras do Velho Lobo, em seu livro Guia do Escoteiro: Mora afastado em uma fazenda? Não tem coleguinhas por perto? Seja um Escoteiro Solitário… Estas palavra do Velho Lobo deixavam bem claro que o importante era seguir os preceitos da Lei e Promessa, e não de ser escoteiro participando de uma determinada associação! Parabéns pelo texto. Sinceramente, sou sentimental, mas não sei o porquê, ao responder começaram-me a cair as lágrimas..

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