Como apareceu o Medo?

Leiam esta bela passagem do Livro da Jângal, escrito por Rudyard Kipling.

Estava uma seca terrível e depois que Shere Khan deixou o rio, Mowgli criou coragem durante um minuto antes de dirigir-se a Hathi; depois perguntou:
– Que direito é esse que se referiu Shere Khan, ó Hathi?

Em ambas as margens sua pergunta foi repetida, porque o Povo da Jângal é curioso e todos acabavam de presenciar algo que nenhum, exceto o pensativo Baloo, parecia compreender.
– Trata-se duma velha história – respondeu Hathi -, uma história ainda mais velha do que a Jângal. Guardem silêncio que vou contá-la.

Houve durante um minuto ou dois um empurra-empurra entre os cerdos e búfalos. Os chefes dos bandos logo impuseram silêncio.
-Vamos à história, Hathi.
O elefante adiantou-se na direção da Roca da Paz até ter a água pelos joelhos. Apesar de magro, enrugado e surrado como estava, o vulto de Hathi dizia à Jângal quem ele era – o Mais Forte.
– Sabeis, meus filhos, que nada tememos tanto como o Homem – começou ele com as suas primeiras palavras seguidas de um murmúrio de aprovação.
– isto é contigo, Irmãozinho – sussurrou Bagheera a Mowgli.
– Por que comigo? Pertenço à Alcatéia, sou um simples caçador do Povo Livre – replicou o menino. – Que tenho com os homens ?
– E sabeis por que tememos o Homem? – prosseguiu Hathi. – Ouvi-me. No começo da Jângal…que ninguém sabe quando foi…nós convivíamos harmoniosamente sem que um tivesse medo do outro. Secas não havia nesse tempo. Flores e folhas, e frutas acumulavam-se nas árvores, e não nos alimentávamos senão de flores, folhas, frutas e cascas.
– Felizmente não sou dessa era – rosnou Bagheera,- Cascas me servem apensas para afiar as unhas.
– E o Senhor da Jângal – continuou Hathi – era Tha, o Primeiro dos Elefantes. Fora a tromba de Tha que tirara a Jângal do seio profundo das águas. Onde fez ele brechas no solo com as presas, aí surgiram os rios, onde afundou a terra com as patas, aí se formaram lagos. Quando Tha soprava…assim…árvores vinham ao chão. Deste modo a Jângal se formou, conforme me foi contado.
– E não emagreceu a história ao ser recontada – sussurou Bagheera, fazendo Mowgli esconder com as mãos um riso.
– Naqueles tempos, não existia o milho, nem os melões, nem a pimenta; nem se viam as cabanas que vemos hoje. O Povo da Jângal ignorava o Homem. Constituía uma grande irmandade amiga. Breve, porém, surgiram disputas a respeito de comida, embora a abundância de alimento vegetal desse para todos. Preguiçosos que eram, cada qual queria comer no próprio lugar onde estava, como fazemos hoje quando as chuvas de primavera vêm abundantes.

Tha, O Primeiro dos Elefantes, vivia ocupado em criar novas florestas e em abrir leitos para novos rios. Como não pudesse estar ao mesmo tempo em toda a parte, fez do Primeiro dos Tigres o mestre e juiz da Jângal, ordenando que todos lhe submetessem as suas queixas. Naquele tempo, o Primeiro dos Tigres comia ervas e frutas como os demais. Era grande como o sou eu e belo de cor: tinha a cor das trepadeiras amarelas. Nenhuma listra ou pinta manchava a sua pelagem macia. Todos os animais vinham à sua presença sem receio nenhum. Sua palavra fazia lei. Éramos, lembrai-vos, um povo só.

Certa noite, houve disputa entre dois gamos; disputa a respeito de pastagem, como estas de hoje, que se resolve a coices e chifradas. Os briguentos vieram à presença do Primeiro dos Tigres, que os atendeu de dentro dum tufo de flores. Durante os debates, um dos gamos o marrou com o chifre e, esquecido de que era o juiz, o Tigre lhe quebrou o pescoço com um valente munhecaço.
Até aquela noite, nenhum de nós havia morrido. Desconhecíamos a Morte e o Primeiro dos Tigres, vendo o que havia feito e sentindo-se alucinado pelo cheiro do sangue, correu a mergulhar-se nos pântanos do Norte. Ficamos sem juiz e as disputas recrudesceram. Tha, ouvindo de longe o barulho da desordem, voltou. Disseram-lhe uns isto, outros disseram-lhe aquilo, mas Tha percebeu o cadáver do gamo no tufo de flores e indagou quem o matara. Ninguém respondeu. Estavam todos endoidecidos pelo cheiro do sangue, a rondar com meneios de cabeça ao redor do tufo. Tha, então, deu ordem aos cipós e às árvores de galhos baixos que margeiam as trilhas para que marcassem o matador, de modo que pudesse ser sempre reconhecido. Depois disse: “E quem quer agora ser o chefe do povo?” O Macaco Gris saltou dos galhos onde vivia e respondeu: “Serei esse chefe”. Tha sorriu e disse: “Assim seja”, e retirou-se, suspirando.

– Meus filhos, todos vós conheceis o Macaco Gris, que era então o que hoje é. No começo, havia arranjado uma cara muito sisuda; depois, deu de coçar-se e pular. Quando Tha de novo regressou, veio encontrá-lo de cabeça para baixo, pendurado pela cauda num ramo, fazendo micagens para o Povo da Jângal, que, por sua vez, caçoava dele. Tinha, assim, desaparecido a Lei, substituída por palavrório tolo e sem sentido.
Então, Tha nos chamou e disse:”O primeiro chefe que vos dei trouxe a Morte para a Jângal e o segundo a Derrisão. É tempo de terem uma Lei que não possa ser quebrada. Será ela o Medo. Quando tiverdes encontrado o Medo, vereis que é ele realmente o vosso chefe supremo”. E, então, o Povo da Jângal perguntou: “Que é o medo?” E Tha respondeu: “Aprendei-o por vós mesmos. Procurai-o”. E então o Povo da Jângal espalhou-se em procura do Medo. Certo dia os búfalos… – Ugh! – espirrou Misa, o chefe da manada de búfalos.
– Sim, Misa, os antepassados dos teus búfalos de hoje. Apareceram os búfalos com a noticia

de que em tal gruta, no seio da floresta, morava o Medo: uma criatura sem pêlo no corpo e que andava de pé. O povo da Jângal seguiu de ruma à gruta, em cuja entrada encontraram o Medo, de pé e nu de pêlos, como disseram os búfalos. Assim que nos viu chegar, gritou, e sua voz nos encheu do mesmo medo que hoje nos causa sempre que a ouvimos. Corremos em desabalada fuga, porque estávamos com medo, e aquela noite, conforme sei, não nos deitamos sossegados e em comum, como até ali vínhamos fazendo. Separamo-nos por tribos, cerdos dum lado, gamos de outro: chifre com chifre, casco com casco, e assim ficou.

Unicamente o Primeiro dos Tigres lá não fora, pois vivia nos pantanais do Norte. Quando soube do que tínhamos encontrado na gruta, disse: “Irei ver essa Coisa nua e lhe quebrarei o pescoço”. Disse e fez. Andou toda uma noite em procura da cova, e foi então que as

árvores e cipós dos caminhos, atentos às ordens de Tha, o riscaram de listras nas costas, nos flancos, na testa, no focinho. Sempre que esbarrava num galho ou cipó, ficava com uma listra ou pinta nova em sua pelagem amarela. E essas marcas até hoje seus descendentes as usam! Quando alcançou a gruta, Medo, o Pelado, apontou para ele e disse: “O Manchado aí vem!”, e o Primeiro dos Tigres teve medo do pelado e voltou para os pantanais, miando.

Mowgli, mergulhado n’água até o queixo, sorriu.
– Tão alto miava o tigre que Tha o ouviu e perguntou: “Que mágoa te assalta?, e o Primeiro dos Tigres, com o focinho erguido para o céu novo em folha (este velho céu que temos hoje), exclamou: Restitui meu antigo poder, ó Tha! Tornei-me malvisto de toda a Jângal e corri do Pelado, o qual me insultou

de sujo”. “E por quê?”, perguntou Tha. “Porque eu estava todo listrado da lama do pantanal”, respondeu o Primeiro dos Tigres. “Sujo de lama? Pois banha-te no rio e rola-te na relva que as listras deixarão tua pelagem”, disse Tha. E o Primeiro dos Tigres banhou-se no rio e rolou na relva até que as árvores da mata começassem a girar em torno dele, mas nem uma só das listras desapareceu. Tha, que o observava, sorriu. Então, o Primeiro dos Tigres disse: “Que faria eu para ficar assim marcado?” E Tha explicou: “Mataste o gamo, soltaste a Morte na Jângal e com a Morte apareceu o Medo, fazendo que os filhos da Jângal se amedrontem uns dos outros e que tu te amedrontes do Pelado”. O tigre disse: “Os filhos da Jângal não podem ter medo de mim, porque nos conhecemos desde o começo”. Tha sorriu: “Verifica isso”. E o Primeiro dos Tigres logo verificou que, inutilmente, chamava pelos cerdos, pelos veados, pelos Sambhurs – todos fugiam ao som da voz do seu antigo chefe e juiz. Tinham medo.

Assim, o Primeiro dos Tigres, já com o orgulho quebrado, deu com a cabeça no chão, rompeu a terra com as unhas

e exclamou: “Lembra-te, Tha, de que já fui o chefe da Jângal. Não te esqueças de mim, Tha. Faz que meus filhos saibam que já fui amado e ignorante do medo”. E Tha disse: “Assim seja, já que tu e eu vimos a Jângal sair do nada. Por uma noite, cada ano, tudo será para ti e para os teus como antes da morte do gamo. Nesse noite, se encontrares o Pelado – cujo nome é homem -, não terás medo dele. Ele, sim, terá medo de ti, como se fosse o juiz supremo da Jângal e o chefe de todas as coisas. Nessa noite de medo para o homem, sê generoso com ele, porque já sabes o que o medo é”.

E, então, o Primeiro dos Tigres respondeu: “Basta. Estou satisfeito”. Mas logo depois, indo beber, viu refletirem-se n’água as suas listras e recordou que o Pelado o insultara de sujo. A cólera pô-lo a fremir. Tinha de vingar-se. Voltou aos pantanais, onde passou um ano à espera do que Tha lhe prometera, e uma noite, em que a lua se ergueu muito clara, sentiu que a sua Noite era vinda. Tomou, então, rumo à gruta do pelado. Lá tudo aconte

ceu como Tha predissera, pois que o Homem, tomado de medo, se agachou, e o Tigre lhe partiu a espinha com um munhecaço. O Primeiro dos Tigres estava certo de que na Jângal só existia um Pelado, e que, matando-o, matava o Medo. Pensava nisso, farejando a vítima, quando Tha se aproximou. Sua voz retumbante fez-se ouvir. Era esta mesma voz que soou agora…
Hathi referia-se ao trovão que, naquele momento, reboara pela morraria resseca. Riscas de fogo riscavam o céu. Mas não chovia. O Elefante Selvagem prosseguiu:
– Foi esta a voz que o Primeiro dos Tigres ouviu, voz que perguntava: “Onde está a tua generosidade, ó Tigre?” O Primeiro dos Tigres lambeu os beiços e explicou que apenas matara o medo. Disse então Tha: “Louco! O que fizeste foi desatar os pés da Morte – e agora a Morte seguirá teus passos até o fim dos fins. Tu acabas de ensinar o Homem a matar!”

Com a pata ainda sobre o peito do Pelado inerte, o Primeiro dos Tigres exclamou: “Está imóvel como o gamo que matei!

Não existe mais Medo. Posso voltar a ser o juiz da Jângal”.
E Tha disse: “Nunca mais os Filhos da Jângal virão a ti. Nunca mais cruzarão teu carreito, nem seguirão teus passos, nem dormirão perto de onde dormires, nem pastarão junto à tua caverna. Unicamente o Medo te seguirá; e por meio de golpes que não poderás perceber donde vêm, nem como vêm, te dominará. Ele fará o chão abrir-se em mundéus aos teus pés, fará laços de cipó constringirem teu pescoço, fará troncos de árvores se erguerem unidos em redor de ti, cercando-te; por fim, tomará tua pele para conchego dos seus filhotes, no tempo frio. Não tiveste piedade do Homem e o Homem jamais terá dó de ti”.
O Primeiro dos Tigres era valente e, como ainda fosse dono da sua Noite, disse: “A promessa de Tha é a promessa de Tha. Terei sempre a minha Noite?”
E Tha respondeu: “Uma Noite única em cada ano será sempre tua, como já te disse, mas há um preço…Tu ensinaste o homem a matar. O Homem não é tardo no aprender”.
O Primeiro dos Tigres disse: “Aqui esta ele sob minhas patas, com a espinha quebrada. Permite-me, Tha, que toda a jângal saiba que matei o Medo”.
Tha sorriu e disse: “Tu mataste um entre muitos; mas dize-o tu mesmo à Jângal, pois que tua Noite está terminada”.

Veio o dia e logo à boca da gruta apareceu outro Pelado; vendo o morto sobre qual o Tigre pisava, tomou de uma longa vara de ponta aguda…
– Eles lançam agora uma coisa que corta – interrompeu Ikki, o Porco-Espinho, que os Gonds, tribo de homens selvagens das redondezas, consideravam bom petisco.
Ikki referia-se à machadinha que os Gonds arremessam de longe, qual relâmpago.
– Era uma vara de ponta cortante – prosseguiu Hathi -, como essas que eles colocam hoje na cabeça dos troncos de árvore que descem sobre o nosso corpo quando caímos nos mundéus. E, arremessando-a, aquele segundo pelado feriu o Primeiro dos Tigres no flanco. O Primeiro dos Tigres correu feito doido pela Jângal até que a vara se quebrasse, e os filhos da Jângal ficaram conhecendo que os Pelados sabiam ferir de longe, e mais ainda o temeram daí por diante.

Desse modo, meus filhos, o tigre numero um foi quem ensinou o homem a matar: e sabeis que calamidade para nos começou a ser isso, essa ciência, essas pontas cortantes, esses mundéus, a vara aguda que vem sibilando e a mosca terrível que nasce ao longe dentro duma fumacinha branca (Hathi referia-se à bala). E também a Flor Vermelha que nos tange para onde eles querem (Hathi referia-se ao fogo). Entretanto, por uma noite única em cada ano, o Pelado teme o Tigre, como Tha prometera, e jamais o Tigre fez algo que amortecesse tal temor. Onde o Tigre encontra o Homem, aí o mata…ou morre. E o medo circula pela Jângal, de dia e de noite.
– Ahi! Aoo! – gemeu um veado que sabia muito bem daquilo. – E unicamente quando um Medo imenso paira sobre todos nós, como agora, é que os filhos da Jângal esquecem o medo comum e se reúnem como estamos reunidos.
– Por uma noite só, em cada ano, teme o Homem ao Tigre? – perguntou Mowgli.
– Por uma noite só – respondeu Hathi.
– Mas sei…como toda a Jângal sabe…que Shere Khan mata dois, três homens a cada lua!

– Sim. Mas à traição e fechando os olhos quando fere…de medo. Se o Homem o olhasse firme nos olhos, Shere Khan fugiria. Na sua noite, porém, ele penetra abertamente nas aldeias, corre-lhes as ruas, mete a cabeça pelas portas…e o Homem, apavorado, deixa-se matar de frente.
– OOh! – exclamou Mowgli para si mesmo, espalhando-se n’água. – Agora percebo por que Shere Khan me mandou que olhasse para ele! Queria ver, queria experimentar se suportava meus olhos, se eu não caía por terra dominado pelo seu olhar…Mas nesse caso não sou Homem, pertenço mesmo ao Povo Livre…
-Umm! – roncou Bagheera para dentro da garganta. – Sabe o Tigre quando é a sua noite ?
– Nunca o sabe, senão quando o Chacal da Lua aparece claro na neblina noturna. Isso sucede, às vezes, pelo verão, outras vezes durante as chuvas. É a Noite do Tigre. Mas, se não fosse o Primeiro dos Tigres, nada teria acontecido e nenhum de nós jamais conheceria o Medo.
Os veados suspiraram, Bagheera encrespou o beiço em um sorriso mau.
– Conhecem os homens esta história? perguntou ela.
– Ninguém a conhece, exceto os tigres e nós, os elefantes descendentes de Tha. Agora vós todos a conheceis.
Hathi mergulhou a tromba n’água como sinal de que tinha dito tudo.

– Mas, mas, mas…- começou Mowgli virando-se para Baloo – por que não continuou o Primeiro dos Tigres a alimentar-se de folhas de árvore e ervas rasteiras ? Ele apenas quebrou o pescoço do gamo, não o “comeu”. Que foi que o levou à carne ?
– As árvores e cipós haviam-no marcado, Irmãozinho, haviam-no transformado nesse tapete de listras que vemos hoje. Por isso o tigre evitou, dali por diante, alimentar-se de folhas e vingar-se de tais plantas nos veados e outros comedores de ervas – explicou o urso.
– Ó, também conheces a história, Baloo!…Por que nunca ma contaste ?
– A Jângal está cheia de histórias como esta. Se me pusesse a contá-las todas, não faria outra coisa. Vamos! Larga da minha orelha, Irmãozinho!

2 comentários em “Como apareceu o Medo?

  1. Quero agradecer pela história! Emprestei meu Livro da Jângal e hoje é dia de contar “Como apareceu o medo” para os lobinhos…
    Um fraternal aperto de mão esquerda!

    Iara
    Kaa do 19º SC Grupo Escoteiro Gonçalves Dias / Palmitos

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