Para um jovem que faz parte do movimento escoteiro é comum pensar que, após o ramo Pioneiro, não lhe caberá mais alternativa do que “estagiar” como assistente de chefe.
Na verdade, nesse pensamento há dois equívocos. O primeiro deles é pensar que o ramo Pioneiro é uma escola de chefes. Inclusive, este blog falou sobre este assunto em outro artigo. O segundo erro é imaginar que você, escoteiro(a), sênior, guia ou pioneiro(a), já não poderá participar do escotismo sem estar vinculado a algum grupo.
Não se preocupe, o escotismo, quando você chegar à fase adulta, continuará fazendo parte de sua vida.
O escotismo adulto existe. Não é um mito.
Desde que o escotismo chegou ao Brasil em 1910, pouco se falou sobre o escotismo adulto. É verdade que, até hoje, o mais próximo que temos disso é o “Clube Flor de Lis” ou “amigos do grupo”, e, mesmo assim, não são muitas as unidades locais que mantêm essa prática. Porém, fora de nossas fronteiras, o escotismo adulto atua desde 1953 em forma de grupos, núcleos e associações.
ISGF – AISG.
Esta associação, ou melhor, irmandade foi fundada durante a Conferência Mundial da WOSM e WAGGGS, em 1953, com o objetivo de oferecer aos adultos que já não estavam envolvidos em grupos escoteiros, uma plataforma para que pudessem continuar a contribuir com a causa escoteira. Mesmo sendo uma irmandade independente, trabalham em harmonia com a WOSM e a WAGGGS, ajudando escoteiros e bandeirantes ao redor do mundo.
No ano passado, inclusive, as duas instituições, WOSM e ISGF, assinaram uma declaração conjunta, que pode ser lida neste link (em português). Leitura recomendada.
No Brasil, quantos somos?
Adultos, segundo o relatório anual da UEB de 2010, somos ao redor de 11 mil. Desse número, temos somente 4 membros individuais filiados a ISGF.
A ISGF está presente em 38 países, sendo que boa parte funciona através de associações ou núcleos, com respaldo da WOSM e da WAGGGS.
Estes núcleos ou associações têm como meta, segundo o site da ISGF, o seguinte:
- Dar suporte aos escoteiros e bandeirantes em suas atividades;
- Fazer parte do trabalho da comunidade local;
- Organizar e promover treinamento a seus membros para o desenvolvimento pessoal;
- Promover a amizade entre outras irmandades a nível nacional e internacional.

Entre outros objetivos, a ISGF dá suporte a escoteiros e bandeirantes.
Desde aqui, o que podemos fazer?
Além de contribuir para que nos incluamos escoteiramente no mundo, a organização de núcleos regionais no Brasil seria uma ótima ideia.
No site da ISGF, você encontrará toda a informação necessária, desde preços de registro a um passo a passo para a organização de um núcleo.
Ainda no site da ISGF, podemos encontrar algumas sugestões de atividades locais que são praticadas pelas irmandades, como por exemplo:
- Transporte, intendência e administração de acampamentos Escoteiros e Bandeirantes;
- Seminários e discussões sobre ética e outros assuntos relevantes;
- Excursões, piqueniques para a irmandade e outras famílias.
Eu ainda incluiria a realização de workshops, o trabalho junto a associação nacional, a promoção do “instrutor de especialidades”, o incentivo e o recebimento de pais no movimento escoteiro, etc; sem mencionar, é claro, todas as atividades ao ar livre que costumamos fazer e que tanto gostamos.
Mais perto do que imaginamos.
No ano passado houve a eleição para a nova diretoria da ISGF. A eleita foi a portuguesa Midá Rodrigues. Sabendo da proximidade que temos com esse país, e mais ainda sabendo que no ano passado tivemos nossa versão lusófona do Joti, poderíamos estar mais perto da criação de um representante da ISGF em nosso país do que imaginamos, caso houvesse uma iniciativa que patrocinasse a colaboração escoteira entre esse dois países, principalmente no que a “escotismo adulto” se refere.
Seguramente, o Brasil, por sua secular tradição em escotismo, seria bem recebido e apoiado nas fileiras da ISGF.
Um adendo ou “uma farofa”.
Há os que fazem a farofa com bacon, calabresa, banana, ovo e, se vocês me permitem, vou fazer algo parecido nesse artigo, “misturando” um outro assunto que combina bastante com o tema escotismo adulto.
Vocês devem ter lido neste blog alguns textos sobre as campanhas realizadas na Inglaterra totalmente voltadas para o voluntariado. Talvez porque eles, os ingleses, sabem que se não há adultos, não poderão assumir a responsabilidade de garantir a segurança de crianças no meio escoteiro. Os ingleses, assim como a maior parte dos países europeus, podem, inclusive, trabalhar com o “ramo” Castor, que apesar de possuir o aval da WOSM, em nosso país, por enquanto, nos resistimos a ele.
Ao contrário da Inglaterra, no Brasil são poucas (ou nulas) as campanhas para a cooptação de voluntários. Há os que alegam que essas campanhas devem ser uma iniciativa somente do grupo escoteiro, o que eu, particularmente, discordo.
Tirando o exemplo da Inglaterra, cuja campanha foi idealizada pela associação britânica, no Brasil a cooptação do voluntário deve ser feita em um trabalho conjunto, ou seja, associação e unidades locais. Até mesmo porque, no escotismo, tudo gira ao redor do exemplo. Se a associação promove campanhas, fará com que seus grupos também se animem a promovê-la. Uma associação ociosa, faz com que seus grupos escoteiros também sejam ociosos, e assim por diante.
E, por último, vejamos o que Baden-Powell dizia sobre o escotismo adulto:
Janeiro de 1937: “Em quase todos os países existem não centenas mas milhares de antigos Escoteiros e Guias na população que cresceram a aprender a ser cidadãos leais e úteis e a ser amigos e companheiros dos seus irmão e irmãs Escoteiros e Guias de outras nações. Esta fraternidade alargada constitui um vasto e fértil campo de possibilidades. O medo parece dominar o mundo nos nossos tempos – nada temam senão a possibilidade de que outra grande guerra caia sobre nós. No entanto, se em vez de apregoar, todas as nações pusessem em prática a chave dos preceitos cristãos, por outras palavras, se o amor tomasse o lugar do medo nas suas relações com os países vizinhos, então a paz e a felicidade reinariam para todos.
Na nossa fraternidade de antigos Escoteiros em todos os países já dispomos do núcleo desta forma de estar. Se esta fraternidade se organizasse, nos Movimentos Escotista e Guidista, com o seu número crescente de membros, poderia tornar-se mais do que um simples núcleo, tornar-se-ia uma liga mundial de pessoas dotadas de mentes sãs e estáveis, com capacidade para resolver os problemas e dificuldades através de soluções amigáveis em vez de se virarem irracionalmente para as armas ou de se envolver em discussões políticas”.
Julho de 1937: “Muitos milhões dos que foram Escoteiros e Guias na sua juventude formam nos diferentes países um fermento de homens e mulheres que ultrapassam as divergências insignificantes e as ofensas antigas, para contemplar um futuro de felicidade e prosperidade para todos através da amizade mútua e de sentimentos de fraternidade. Temos aqui o embrião de um exército ou força de intervenção para a paz, perante o qual os exércitos da guerra serão forçados a render-se, mais tarde ou mais cedo”.
O texto acima foi publicado no número especial da revista “Strada Aperte”, distribuída aos participantes da 26ª Conferência Mundial da ISGF/AISG. E foi traduzido pela FAEP – Fraternal dos Antigos Escoteiros de Portugal.


Aprecio o autor quando grafa entre aspas “CASTORES”. Diplomaticamente não está sem alinhando com a corrente que diz que CASTORES = ramo e nem com a que diz que CASTORES = possibilidade.
Recordo aos/as leitores a fala de B.-P. quando reconhece a importância da mãe na educação escoteira do neo escoteiro. Se vê que ele a pensa como sendo uma adulta a qual um dia fora escoteira e também por isso apresenta seu jovem á causa.
Recordo também que B..-P., á vista dos fatos conclamados, repensou no escotismo. Vejam o que ele teve que assumir quando umas “tantas” moças se apresentarem em um uniforme masculinizado no Jamboree. È A FORÇA DA MINORIA, QUANDO ELA MINORIA TEM A RAZÃO.