Se você já leu alguma biografia sobre Baden-Powell ou livros que tratam sobre a história do escotismo, deve ter encontrado muitas menções sobre os cadetes de Mafeking, que desempenharam várias tarefas durante o cerco a esta cidade e que, segundo alguns, inspiraram Baden-Powell a organizar o Movimento Escoteiro.
Porém, pouco ou nada se diz da participação dos escoteiros na Primeira Guerra Mundial: apenas pinceladas sobre sua atuação na vigia da costa britânica. Esta atuação, por certo, que aconteceu em 1914 logo após declararem a guerra contra a Alemanha, contou com ao redor de 1300 escoteiros e o trabalho foi reconhecido oficialmente pelo Almirantado Britânico.
Mesmo assim, Baden-Powell, talvez empolgado com o trabalho realizado na costa britânica (assim como ficara com o dos cadetes de Mafeking) e com o desejo de mostrar que os escoteiros poderiam servir a sua pátria tão bem como qualquer soldado, quis dar um passo além e fazer com que tivessem uma participação ativa na linha de frente durante a Primeira Guerra Mundial.
O Corpo de Defesa Escoteiro.
Baden-Powell, então, na Gazeta do Escritório Central Escoteiro de 1914, anunciou seu novo plano para os escoteiros de 16 e 17 anos de idade: a criação do Corpo de Defesa Escoteiro, que estaria à disposição, caso se produzisse uma invasão alemã, para fazer tudo o que estivesse em suas mãos.
Cada escoteiro entre 16 e 17 anos deve ser convidado a enviar seu nome através de seu chefe de tropa, disposto a servir caso seja solicitado.
Um garoto de 16 anos treinado para a disciplina e pontaria será mais valioso que um soldado treinado para nada em particular.
Baden-Powell
Baden-Powell se adiantou às críticas, afirmando que isto não era militarismo, senão uma luta contra o militarismo. A filiação ao Corpo de Defesa Escoteiro era, obviamente, voluntária e o Corpo não deveria ser considerado uma característica permanente do Movimento Escoteiro. Duraria enquanto a Primeira Guerra durasse.
Acreditando na importância da atuação dos escoteiros, Baden-Powell escreveu várias cartas à imprensa britânica e a todos os distritos escoteiros, incentivando os jovens a fazerem parte da ideia.
Condições para a admissão.
As regras para ser admitido a esta nova seção foram publicadas na Gazeta do Escritório Central Escoteiro em novembro de 1914. Os escoteiros deveriam ser treinados como infantaria, mas em casos especiais poderiam ser contingentes de ciclistas, de cavaleiros ou de marinheiros. Os jovens de 16 e 17 anos que quisessem participar teriam que apresentar o consentimento de seus pais por escrito.
Baden-Powell chegou a criar um sistema de organização para o Corpo. Uma patrulha de 8 rapazes formaria uma seção, que por sua vez fazia parte de um pelotão. Quatro seções formariam uma companhia e quatro companhias um batalhão, formando um total de 512 recrutas, todos sobre a direção de um Comissário.
Os escoteiros deveriam levar seu próprio equipamento, incluindo duas botas, cobertor e capa de chuva, camisa de flanela extra, meias e uma jaqueta. Cada patrulha deveria ter uma barraca e um meio de tranporte, como uma carroça ou bicicletas.
O nascimento dos Plumas Vermelhas.
Recomendava-se que os funcionários do Corpo de Formação Escoteira, que eram responsáveis pelo treinamento, tivessem vínculos com oficiais do exército. Nenhuma unidade do Corpo de Defesa Escoteiro poderia ser reconhecida sem passar por uma inspeção de um oficial. Se a inspeção tivesse êxito (e nem sempre tinha), os escoteiros ganhariam um distintivo de metal com uma pena vermelha, que seria usado do lado esquerdo da tira de couro do chapéu. Além da inspeção, os escoteiros deveriam passar pelas provas de tiro e precisão.
Durante a Primeira Guerra, os oficiais recomendavam aos seus soldados a leitura dos livros de Baden-Powell, principalmente o Ajuda à Exploração Militar.
Baden-Powell, nesta época, ainda escreveu um livro especialmente para os Plumas Vermelhas (ou Penas Vermelhas) sobre tiro de precisão chamado Marksmanship for Boys.
Durante os anos que se seguiram, Baden-Powell foi fazendo ele mesmo as inspeções e concedendo as plumas vermelhas aos escoteiros que participavam do Corpo de Defesa.
A conclusão do serviço.
O Corpo de Defesa Escoteiro nunca foi reconhecido pelo Escritório de Guerra Britânico. Baden-Powell, pouco a pouco, foi obrigado a retroceder em sua ideia, pois sem o reconhecimento e sem apoio do governo, o Escritório Central Escoteiro se viu gastando muito dinheiro em benefício a esta causa.
Mesmo assim, milhares de jovens fizeram parte do Corpo de Defesa Escoteiro, recebendo instrução e atuando em várias cidades do Reino Unido.
Os Comissários, por sua vez, narravam o grande entusiasmo de jovens acima de 15 anos pelo Corpo de Defesa Escoteiro. Tal fato, devia-se a que não existia atividades específicas no escotismo para estes jovens, que eram obrigados a deixar seus grupos escoteiros quando completavam 15 anos. Em resposta, em 1917, foi criado o Ramo Sênior.
Os escoteiros Plumas Vermelhas nunca foram citados em qualquer livro escoteiro. Os Red Feathers se converteram no exército esquecido do escotismo.








Certamente este artigo irá causar certa sensação no universo escoteiro. Assim como outras tantas situações foram criadas por BP, o “exército esquecido” dos Red Feathers, representou a maior cartada a favor do Movimento que ele mesmo criara. O mundo vivia uma época de confrontos bélicos do qual a IWW foi o apogeu. O emprego de civis e menores talvez não tivesse mais a mesma audácia que fora demonstrada na Guerra contra os Boers, pois as máquinas de guerra agora estava se profissionalizando e não estava nos planos do Gabinete de Guerra inglês o uso de “crianças”. Pois além da condição de combatente, o soldado inglês deveria estar preparado para “ocupar” os territórios vencidos. É verdade que as tropas escoteiras do Scouts Red Feathers Corp iriam atuar somente em caso de extrema necessidade, mas mesmo assim o uso desses meninos não seriam bem vistos pela opinião pública. Mas se a utilização desses escoteiros não aconteceu, ganhou o escotismo pela experiência demonstrada no período que ficou em treinamento. Foi uma das grandes idéias de BP para manter o Movimento na mídia numa Europa devastada pela guerra cruel do início do século XX.
Parabéns pelo excelente nível do artigo. Esperamos apenas estar com ele arregimentando guerreiros… Pois precisamos é de escoteiros e adultos que os possam orientá-los.
Dagoberto Mebius
Olá, Dagoberto.
Sempre é bom dialogar com pessoas como você, que trazem novos dados aos textos.
Muito acertada sua colocação sobre a publicidade x movimento escoteiro. O cerco de Mafeking, por exemplo, parece mesmo não ter sido tudo aquilo que sempre lemos nos livros; mas veja como foi sabiamente usado para alavancar o escotismo.
No mais, condivido sua opinião.
Grato pela visita!
Muito boas as materias!
parabéns aos organizadores!
Precisamos muito reforçar o Movimento.
Sempre alerta!